sexta-feira, 5 de julho de 2013
A imperatriz agitada
O grande Montale, no Extermínio das Águias, diz que não tem simpatia por nenhuma lei, ou seja, gostaria que as coisas que não se fazem fossem indicadas aos homens pela sua consciência e que o acordo fosse universal. É uma boa abertura para falarmos da imperatriz agitada: a ansiedade.
Se fizéssemos ou deixássemos de fazer, sempre, o que a nossa consciência dita, pouco mercado haveria para os ansiolíticos ( em alternativa, uma banana sossega o estômago). Protestam: Então e a ansiedade provocada, por exemplo, pela doença de um filho ou pela viagem perigosa de um companheiro? Pois é, mas distingo ansiedade de angústia, essa princesa envenenada ( que fica para outra monda).
A ansiedade é credora das nossas acções, é uma mola que dispara quando ficamos conscientes de que as coisas não estão a correr bem porque não as estamos a fazer bem. O "bem" aqui é relativo: o assassino pode ficar ansioso porque o tipo a quem enviou duas ameixas ainda respira.
Quando uma sociedade vive em sobressalto, como a nossa vive agora, isso significa que o ambiente fica ainda mais instável, mais imprevisível,logo, mais gerador de anisedade. Há pessoas que me dizem: O que quer que eu faça parece que é mal feito. Se resolvo um problema, aparecem logo mais dois".
Os ansiolíticos são bons mas destreinam-nos. Uma resposta à ansiedade, ao alcance de todos, passa pela prevenção. Vive a tua vida sem te colocares em palcos onde tenhas de agradar a senhores impiedosos, vive a tua vida sem que tenhas de te trair.
Estes dias quadrados parecem dar razão a Montale, desta vez numa pequena frase que podemos dedicar aos grandes decisores " Fizemos o nosso melhor para piorar o mundo.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
A única coisa

Na sequência da discussão anterior, o que se pode opor à perda de lei ( o nosso amor, um filho, um pai querido etc)? Tanto quanto sei hoje, misturando a experiência pessoal, a profissional e as leituras, só existe uma coisa. Uma única coisa.
Recapitulemos. As grandes perdas são histórias de destruição natural, como as de Sebald, Arrasam planos, esperanças, sim, mas também a vontade e o quotidiano. Um pouco como um avião que nos leva para um fuso horário desconhecido, num descampado onde até as nossas mãos não parecem nossas. Basta sentar-mo-nos à mesa, à hora habitual, e olhar para a cadeira agora vazia: jet lag demoníaco.
A rotina é uma aliada. Como nas cidades destruídas, reerguer as paredes, limpar um poço, procurar batatas velhas. Ou seja, levantar cedo, ir trabalhar, suportar o trânsito. Não chega, essa pele fina de normalidade.
A unica coisa com potencial equivalente à destruição é a criação. John só muito tarde percebe o que é o grande malogro - "não ser nada" - quando Mary morre finalmente. A Fera na Selva vale por uma enciclopédia de psicologia, porque mostra o axioma numa cronologia contrariada.
E o que é criar por oposição a perder? É pintar, escrever, ler, plantar, fazer um amigo, arranjar um amante, ter um filho, enfim, fazer de novo. Só assim a perda se integra e ocupa o seu lugar na ordem natural das coisas.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Fazer-se à vida
De repente, um adulto fica a braços com a morte dos pais no espaço de um ano. E uma morte lenta, cativa de recapitulações, planos, cacos soltos de esperança escorrida como vinho na taberna. Enfim, o processo habitual de volta à arena numa praça deserta.
Contam-me um misto de recomeço com meta cortada. É suposto continuar, tudo faz parte da lei natural, mas há qualquer coisa que não bate certo. Temos sempre tantos planos para os nosso pais, não é? Que envelheçam bem, que sejam os melhores da hidroginástica, que não usem andarilho etc.
Ficamos mais duros, alguns mais confiantes, outros afundam-se no relambório do que não chegou a ser dito ( a máxima expressão da menoridade). O que é certo é que esquecemos a forma. É que a lei natural ( eles têm de morrer) não manda que assistamos à agonia sucessiva.
Faz alguma diferença? Faz: a dor devia ser limpa e espaçada. É assim que os leões matam.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Da cólera
Depois da Baía dos Porcos, Kennedy deu ordens expressas : Não quero esse tipo ao pé de mim. O tipo era o comandante-chefe da Força Aérea e tinha garantido o sucesso da coisa. O fracasso é assim : um tipo que queremos longe de nós, um tipo que nos prometeu tudo ou não nos deu nada, mas falemos da cólera.
Petrarca, de novo: os motivos encontram-se sempre, as ofensas inventam-se. A cólera alimenta-se de qualquer migalha, é a célebre teoria da gota de água. Comparo a contenção da cólera à contenção do desejo, porque são situações em que o tempo joga a nosso favor. Na cólera, pode salvar-nos a vida ( e a dos outros) , no amor pode garantir-nos um prazer inesquecível.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
L, 28 anos, casada, sem filhos, rema contra a corrente. Ainda bem que foge à neoplasia nacional e os salmões selvagens são bichos de respeito. Tem um emprego mas não está satisfeita. É leitora do DC e, quando ler isto, vai recordar-se da nossa última conversa. O caso dela é sobre expectativas: são boas ou más para a saúde?
No caso dela, as expectativas afectam o processo de decisão. Isto porque L. espera muito de uma vida profissional diferente. Noutras vidas é de um divórcio que se espera o renascimento, noutras ainda é numa mudança de casa que depositamos a reviravolta.
Quando se vai caçar com calibres médios ou grandes, o primeiro dia é reservado para o zeroing. Trata-se de adaptar a arma, mesmo que já velha conhecida, ao momento que se avizinha ( viagens, alterações de temperatura e humidade etc, tudo pode descalibrar a coisa). Começa-se a 25 jardas e depois passa-se a 100 jardas. É um bom método.
Com as expectativas é a mesma coisa. Temos um alvo, mas, entre a decisão e a execução, muita coisa pode acontecer, até o previsto, pelo que as expectativas devem ser ajustadas gradualmente.
Esperar muito de uma mudança arriscada e corajosa retira-nos a concentração e a energia para levá-la a cabo e conduz-nos a exageros e a uma mira desafinada. Até conhecemos governos que erram assim, não é?
segunda-feira, 24 de junho de 2013
O factor Sísifo
Não vou entrar na discussão sobre a raíz neurótica-frustrada ou treinada-aprendida dos comportamentos. Interessa-me dar uma pequena ajuda a quem precisa de alterar a forma como está a conduzir a sua vida num determinado aspecto.
Uma boa base é perceber o que a pessoa define como factor Sísifo, ou seja, o que a pessoa entende que está a ser um desperdício de tempo e de esforço. Isto parece evidente, mas muita gente crê que não existe relação entre o ganho e a energia despendida para o efeito.
O amor é um desses territórios. Ele não quer, mas ela insiste, rebaixa-se, cede em tudo. A crença no outro, ou na nossa superior capacidade de o moldar, obnubila o tremendo gasto de energia e o rombo que toda a situação provoca no nosso amor-próprio.
O desgaste que a crise provoca é outra montanha para rolar pedra. A resposta habitual é a intensificação dos vazadouros: irritabilidade, bebida, tabaco, isolamento.Como é natural, a resposta só vai aumentar o peso da pedra que temos de rolar montanha acima.
Sílio Itálico, tido a certa altura como sucessor de Virgílio, mereceu de Plínio o Novo o seguinte comentário ( sobre o Punica): maiore cura quam ingenio. É isto - mais transpiração do que inspiração - , numa tradução libertina, que acontece quando ficamos cegos ao esforço inútil que dispendemos em resposta a uma necessidade não satisfeita.
O que há a fazer é, primeiro, uma confrontação honesta com a nossa cegueira. Somos nós que nos estamos a tramar, ainda que este seja um mundo de carrascos. Depois, aplicar o esforço sem sentido nas coisas que nos podem salvar. É que, ao contrário de Sísifo, não fomos castigados pelos deuses mas pelos homens, pelo que nada existe que não possa ser feito ou suportado de outra forma.
Se não acreditam em mim, leiam Primo Levi.
Sílio Itálico, tido a certa altura como sucessor de Virgílio, mereceu de Plínio o Novo o seguinte comentário ( sobre o Punica): maiore cura quam ingenio. É isto - mais transpiração do que inspiração - , numa tradução libertina, que acontece quando ficamos cegos ao esforço inútil que dispendemos em resposta a uma necessidade não satisfeita.
O que há a fazer é, primeiro, uma confrontação honesta com a nossa cegueira. Somos nós que nos estamos a tramar, ainda que este seja um mundo de carrascos. Depois, aplicar o esforço sem sentido nas coisas que nos podem salvar. É que, ao contrário de Sísifo, não fomos castigados pelos deuses mas pelos homens, pelo que nada existe que não possa ser feito ou suportado de outra forma.
Se não acreditam em mim, leiam Primo Levi.
domingo, 23 de junho de 2013
Dor constitucional
Petrarca considerava que a dor, física ou emocional, só se tornava impossível de suportar devido à fraqueza da alma. A virtude : suportar a dor nunca se alcança por sorte, mas pela persistência. Ao contrário dos epicuristas, Petrarca pretende combater apenas a dor, diminuí-la, não torná-la agradável. Socorre-se muitas vezes de exemplos de homens ( e deuses...) que o conseguiram, para estabelecer como universal e ao alcance de qualquer um conseguir vencer algumas batalhas.É aqui que entramos na arena.
Quando tenho alguém em sofrimento a quem conto histórias de doentes que padecem de males piores, ouço o habitual "Com o mal dos outros posso eu bem". Se der exemplos de pessoas que suportaram a dor. o que ouço é um pouco o que a Dor diz à Razão no manual de Petrarca: " Não somos todos iguais". Nestes dias em que o sofrimento é quase igualitário, o que mudou?
Posso estar enganado, mas noto forças em gente que tudo tinha para desistir, mas também noto um bicho diferente acoitado no matagal. É como se algumas pessoas, trespassadas pelos factores ambientais, se estejam a deixar ir. É como se a dor passasse a ser constitucional.
Não era bem isto que o amante de Laura pretendia.
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