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sábado, 9 de novembro de 2013

Inês de Castro e a kairologia


Usa-se no futebol, na descrição dos debates políticos, em todo o lado em que acontece o que devia acontecer. Dioníso de Helicarnasso achava que não. Ninguém conseguiu  definir a arte da oportunidade, nem mesmo Górgias de Leontinos, que terá sido o primeiro a escrever sobre o assunto. Traduzindo em passe vite a ideia de Dionísio:  dependendo a arte do kairos  de uma situação determinada, julgada pelos olhos de quem a vê e ocorrendo num instante preciso, que, por sua vez,  é o produto de momentos anteriores e  coevos, é impossível definir a arte.
A altura certa para dizer a verdade, o momento  benigno para abandonarmos, o segundo preciso em que desistimos. Arrisco contrariar Dioníso ( espero que no instante certo): domina a arte da oportunidade quem duvida do futuro.
O tempo desempenha um papel essencial. Lembro-me de uma mulher. Trintona, engraçada, amarrada um marido desleixado,  um café de aldeia em comum, dois filhos.  Enamorou-se de um tipo que lavava os dentes e tinha facebook. Discutimos a situação várias vezes, a coisa arrastou-se  durante  um ano. Um dia entra-me pelo gabinete com cara de quem foi ao pote das bolachas. O marido morrera de repente. O problema: agora não conseguia juntar-se com o outro. Remorso, culpa, fosse o que fosse.
Lembro-me que estiquei as pernas, olhei para  a janela do gabinete e resumi:  Agora  é tarde, Inês é morta.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ordem unida e ordem natural

Direita, falhar, marche. Como se digere o fracasso? Há uma ordem unida psicológica?
Preocupo-me mais quando são personalidades bipolares ou quando existe uma fraqueza associada: um problema de saude, uma perda recente etc. Isto porque vejo o fracasso como uma falange que nos sitia. A guerra é inevitável, a logística essencial.
Quando falhamos,  perdemos meios  e territórios. A primeira tarefa é incluir o fracasso na ordem natural das coisas. A segunda é recuperar o moral. Há gente que não consegue a primeira ( não aceita), há gente que não sabe fazer a segunda.
Aceitar o fracasso não significa aceitar  o que fizemos para fracassar. Significa aceitar que,  tudo considerado - as nossas acções, as dos outros, o ambiente-, o resultado não podia ser outro. A inteligência não serve só para tirar boas notas ou defender teses académicas. Acima de tudo, a inteligência é uma ferramenta para compreender.
Recuperar é recuar. Entender que, como estamos  e decidimos, não somos suficientemente fortes. Recuar para o porto que conhecemos bem ( Séneca) , restaurar o cordame e os instrumentos de  navegação. Visitar amores, comer, beber e dormir. Sonhar.
Se somos  depressivos, o fracasso é visto como natural. Se somos bipolares, o fracasso é inaceitável (na fase maníaca), se não temos amor-próprio ( os psis dão-lhe o nome de auto-confiança), ficamos cheios de pena de nós.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A carne ou a vida


Estas chitas pequenitas, dentro de dois anos, vão atingir os 114 km/h. É para  isso que a mãe trabalha, é isso que lhes vai garantir a carne. Também sabem ficar quietas: o Henrique Galvão teve uma que dormia aos pés da cama. Sobreviver é dinâmica.
Uma mãe que todos os  dias diz que  a filha é  uma molenga e um pai que  chama idiota ao filho todas as manhãs seriam despedidos da guilda de chitas criadoras. Os papás que vivem as suas vidas de frustração  através dos filhos, incensando-os e perdoando-lhes tudo, idem. Criar é fazer, não é?
Como restaurar? Difícil. Não os posso virar contra os pais, tenho de os distanciar da  intoxicação. O trabalho terapêutico acaba por ser uma  segunda criação. Mostrar-lhes  as ferramentas que têm de saber utilizar. O João dos Santos dizia que estamos  cá para fazer falhar a educação que recebemos. Eu também conheço um tipo que teve seis filhos  e cinco  têm  a profissão do pai. Não somos chitas...
Não temam, não se trata de relativismo agudo. O que o João dos Santos dizia é que, chegando ao fim da adolescência, temos de processar o legado e escolher: com o que ficamos, com o que rejeitamos. Acrescento que  a proporção é variável, mas a condição mental é essa: escolhe, ganha autonomia, separa-te. Depois podes voltar e até comer castanhas assadas  com os velhotes. Isso não conseguem as chitas.

domingo, 3 de novembro de 2013

Do prazer

Lembro-me de uns idiotas que nas caixas de comentários de um jornal criticavam uma professora que se queixava dos cortes: o pecado da mulher era ter o cabelo arranjado. Insidiou-se um anátema: só pode protestar quem não se der ao prazer. Nenhum prazer.
Isto leva-me, se bem me lembro, como dizia o grande Vitorino, ao meu arquivo de prazeres proibidos. À cabeça, uma doente cuja história já contei aqui.  A morrer devagarinho de um carcinoma espinocelular ( tumor no nariz), o seu maior prazer era receber  a filha mais nova que chegava da escola. Lanchar leite com bolachas. Os dos velhos  carregados de medicação que não dispensam um copito também me alegram: é sempre vigoroso ver a vida a estrebuchar. O mais importante é, no entanto, esta anomalia histórica que organiza a nossa vida. Não se pode ter prazer se estivermos nos  braços da crise ? Pode  e deve.
O prazer é constitucional. O seu tribunal está na amígdala cerebral e não meteu férias. Ele  até é obrigatório. Uma das minhas  recomendações habituais a alguém que está na mó de baixo é que compense. Uma hora  extra de sono, uma cozinha por arrumar, um livro cuja  releitura estava  a reter. É uma escolha pessoal. Eu antecipo. Se sei que vou ter um dia de cão, ou se fui surpreendido por um dia de chacal, tiro da caverna um presunto bísaro, abro  um Papafigos e acendo uma Partagas. Amanhã? Os estóicos  não pensam nisso.  Tira o sono.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A pescadinha


Em mais de vinte anos nunca ouvi queixas da vida sexual em casais de pessoas casadas com outras pessoas e conheci relações extra-conjugais  que duraram até seis anos.
O botão ( e que botão...) delas  tem um telecomando dentro da cabeça. Esse telecomando  deve ser accionado muito antes do outro. Às vezes 48horas antes. Ora, o companheiro distraído passa o dia calado, ou mal-humorado,  e à noite atreve-se.  Não ouviu a chatice que ela teve com um aluno, não notou a alteração que ela fez no quarto de hóspedes, refilou por ela ter chegado tarde de casa da mãe. Como o botão dele é um bocado solipsista, avançou. Esbarrrou-se, como dizem no norte. Os tempos actuais não ajudam nada, mas eles funcionariam da mesma forma se os tempos fossem outros. Elas, mais sensíveis, ou seja, mais compreensivas e inteligentes,  talvez se ressintam mais.
Num casal que vive em comum, o sexo começa dias antes. Antes de ser já era.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Espreitem

"One effect of present saturation is the production of a characteristic form of
sacrifice and consumption that is ultimately destructive. This form of sacrifice
involves a contradiction between the need to construct images of a future and the
desire to make the middle-class subject’s aspirations invisible because their open
expression makes that subject vulnerable. As when, for instance, the desire to buy
a new car is repressed out of the fear that having it will attract thieves, or the
desire to acquire an expensive education is repressed out of the fear that admit-
ting current deficiencies in education will expose the subject’s deficiencies".

México, crise, sacrifício.

domingo, 27 de outubro de 2013

Ansiedad


Se não quiserem o King, usem este  quizz, muito profissional.
A ansiedade é o tempo antecipado. Numa apresentação científica, num encontro  sexual, numa final da Taça,  na espera pelo diagnóstico de possíveis metástases. O que queremos  é apressar a a ampulheta, saltar sobre a flecha, repousar. Os ansiosos são gatos eléctricos.
Sim, há uma mais permanente, arraçada de angústia ou refogada com NOC, mas é de outro campeonato. O que me faz mencionar um caso recente que rebarba  as ideias feitas.
Apareceu-me à frente uma miúda de vinte poucos acabada de se licenciar numa dessas áreas modernaças-tekno que agora competem com os - e estamos no tempo deles - cogumelos. Fez-me lembrar uma actriz cujo nome  agora não recordo: pálida, olhos cinzentos, cabelos pretos compridos. Conhecia já um ou dois familiares, gente boa, mas nervosinha. Senta-se e desata  a chorar.  O Canaris de Coimbra faz a história  e nada, népias: tudo correu, até aí, bem. O problema: medo, ansiedade a calcar o futuro.
A miúda tem mais raça que um puro-sangue e não suportava a ideia de falhar. Mais: queria adiantar o relógio, saber "se dava". Deu. Um par de testes em "eventos" e já conseguiu duas encomendas para duas grandes, muito grandes empresas. Vi-a no outro dia: agora está sorridente mas  cansada. Os coelhos eléctricos são assim.