Olham-nos como se lhes devessemos dinheiro, escreveu Ruark a propósito do cafre da foto. Lembro-me sempre desta tirada de Ruark ( até porque o leio vezes sem conta) quando mergulho vestido nas novas configurações amorosas em tempos de sms e redes sociais. Tenho conhecido namorados que discutem por sms, casais separados que se insultam por facebook, amantes que se conhecem por email. Tudo sem olhar.
Tenho sobre o olhar interessado de uma mulher a mesma opinião que Paul Valery tinha sobre a obra prima literária: qu'il est du tout impossible d'y rien changer. Síntese à parte, a ausência do olhar significa, claro, mais coisas. Tomemos , por exemplo, um Queres ir jantar hoje?/ Não posso/ Está bem então. Ela não o vê a conformar-se e pode entender desinteresse onde talvez haja tristeza e decepção. E por aí adiante.
Os engates na net equivalem aos olhares trocados numa festa. Nos primeiros parece que estamos a comprar cavalos - Quanto pesas ? Usas preservativo? O que tens vestido? - ou num concurso de TV - Qual o teu filme preferido? E a música? Onde trabalhas?
Nos segundos, os resgatados à monotonia ( da solidão ou do esforço) falam uma língua universal sem dicionário.



