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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O fiel inimigo


Não o da foto. Esse é o porco do mar, dele como tudo. Rabo e espinhas para  a canja, lombos na brasa de lenha com carqueija depois resgatados na caçoila de barro  no forno com alho, de ladelas para pastéis  ( a carne ensarilhada num pano grosso), as bochechas e as línguas estufadas ou fritas, as caras e os sames guisados com feijão branco.  O fiel inimigo é o tempo, que nunca larguei desde que comecei a estudá-lo em França in bygone days.
É um inimigo poderoso e imortal, porque todo os dias saqueia as tuas posses ( mesmo quando dormes). É fiel porque acompanha-te toda  a vida e só te larga quando já não o reconheces. Alguns  de nós imaginam domá-lo, como se de um ribeiro de aldeia se tratasse, outros pensam amealhá-lo, como se  coubesse num cofre. Coitados.
A única forma de viver com este  inimigo fiel é aceitar a sua regra:  vive como se ele não existisse. Ao contrário do bacalhau, digo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ansiedade e treino (II)


A escolha das imagens não é inocente. O treino físico é um óptimo ansiolítico. Ainda faço duas séries de press de banco com 60kgx8 ( à antiga, não gosto de máquinas) e se lhe juntar umas elevações na barra ( as da foto e as em supinação) até consigo ouvir o Jorge Jesus sem me subir a tensão arterial. O problema? Como disse no primeiro número,  qualquer ansiolítico natural tem de ser adequado às características da pessoa. Há muita gente que nem 10kg quer ou pode levantar. O treino físico tem outra conexão com a nossa tarefa. Exige compromisso, rotina e  ajustamento gradual. Onde as águas se separam é na cosa mentale.
Como bem recorda Humberto Eco, para falar de chuva não basta sentir gotas de água que caem do alto, porque pode tratar-se de alguém que está a regar flores  de uma varanda. Um estado bestial de ansiedade também  escraviza  o eixo absoluto-relativo. Por exemplo: a Maria está em casa e começa a sentir um aperto no peito. Esse aperto vai transformar-se no receio de um  possivel enfarte.  A Maria até pode saber que não é enfarte  ( a rega das plantas da varanda), porque fez exames no dia anterior, mas sente como se fosse ( as gotas de chuva).
Treinar as emoções pode parecer bizarro ou até impossível, mas não é. Os actores fazem-no, as crianças fazem-no ainda melhor ( nunca viram uma birra?), algumas mulheres treinam  orgasmos. Dir-me-ão que isso é  fingir. Sim  e não. Todos esses contextos implicam investimento emocional, todos eles pressupõem um ganho.
Tenho dito à Maria que quando começar a sentir o aperto no peito  vá fazer uma coisa que gosta. Claro que a Maria pode praticar isto porque costuma sentir a ansiedade em casa. Ir fazer uma coisa que gosta ( subverter a dieta, telefonar à  namorada, etc) significa escolher um bom estado emocional. A soma  das duas posições - ansiosa/prazenteira -  não será tão boa como a neutral/prazenteira mas será muito melhor do que ficar sentada no sofá a sofrer. E isto faz toda  a diferença.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Psicologia com os clássicos (I): Dejanira


O ciúme de Dejanira é sexual, mas os ciúmes mais tóxicos que conheço são de outra natureza. A matriz é sempre um pensamento maníaco e insolente produzido por um pensador desiludido e mal amado. Dejanira acaba por dar razão a esta observação que qualquer  interesssado na  natureza humana pode fazer. Utilizo uma  tradução ( excelente como sempre) de Maria José Fialho.
Para quem não conhece: Dejanira recolhe do peito de  Nesso, o Centauro,  o sangue provocado pela lança de Héracles. O Centauro tinha-a apalpado e o filho de Zeus não gostou. Dejanira aplica esse sangue numa túnica, porque o moribundo prometeu-lhe que  que ela ficaria da posse de um encantamento especial: Héracles nunca mais voltaria  a olhar para outra mulher.  Bem, o tempo passa, Héracles trai e vola a trair e Dejanira resolve usar o filtro mágico. A coisa corre mal e o marido agonia em vez se tornar fiel . Dejanira mata-se, Hilo atira o corpo do pai para a pira, apaziguando-lhe  o sofrimento.
O estásimo III revela Cípris, a deusa que motiva o apetite de Dejanira,  como uma deusa do engano e da destruição. Quem está familiarizado com  as tragédias gregas sabe que os deuses desempenham um papel de ignição das forças e fraquezas humanas. Dito por mim, portanto, por um pobre leigo:  a eles tudo é permitido, os humanos é que os interpretam mal. Dejanira  foi conquistada por Héracles com a ajuda dos deuses e ilude-se desde aí. A sua soberba será por eles castigada.
Na nossa actual vidinha contentinha, inchados de importância  técnica e desdenhando tudo o que não se possa ser impingido pela publicidade ou fabricado,  As Traquínias parece um texto  tolo e deslocado. Pensa outra vez, quando leres uma história banal de ciúme  e  morte.



sábado, 25 de janeiro de 2014

Ansiedade e treino (I)


Estou a desenvolver uma rede terapêutica com várias pessoas que sofrem de diferentes tipos de ansiedade. O grupo ainda é pequeno, vou adicionando aos poucos, e, nunca se tendo conhecido,  as pessoas beneficiam das experiências alheias. Digamos que é um psicodrama virtual em que funciono como canal de comunicação e de orientação, com a vantagem de muitas vezes poder ser feito à distância ( mais barato e prático). Dou preferência a quem não esteja sob medicação ansiolítica ( embora não seja um obstáculo) porque o objectivo é desenvolver capacidades de aprendizagem no lidar com os sintomas.
Um ponto fundamental, como em qualquer plano de treino, é adequar  os exercícios às características da pessoa. Uma rapariga estudante que viva sozinha não beneficia da mesma instrução de um mãe de família que faz dez horas por dia numa fábrica. Da mesma forma, um advogado apressado necessita de um treino  diferente do de um reformado angustiado.
Tal como insinuei aqui, a base é  a compreensão de que um determinado estado emocional  não tem de corresponder necessariamente ( sempre) a um respectivo registo comportamental. É a partir daqui que se constrói o plano de treino. Seja uma ansiedade difusa, uma inclinação compulsiva ou uma matriz fóbica, a primeira batalha é decisiva. As pessoas ficam tão habituadas a ser dominadas pelo estado ansioso que é trabalhoso virar  a mesa.
Um exemplo prático. Tal como num calendário de cefaleias, a pessoa é instada  a fazer um registo das situações que a põe mais ansiosa.Visita à sogra, reunião com o chefe, um a noite sozinha em casa. Se conseguirmos  bispar contextos marcadamente  ansiógenos,  a pessoa pode antecipar, preparar o exercício. Depois, o essencial é dizer isto ao sintoma: podes estar a controlar-me, mas pelo menos decido onde me controlas. Significa que um dos exercícios é alterar o  lugar ou a tarefa. É aqui que é necessário ter estudado bem a pessoa - as suas  rotinas, dificuldades, idiossincracias - de forma a que as técnicas sejam ajustadas e exequíveis.
Parece pouco, eu sei, mas é muito.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Feliz por engano

Rita, participante aqui no DC:

"Será assim tão ilegítimo que o caminho se faça na busca do que não se teve? Não como uma forma de compensação mas de maneira a alcançar aquilo que se sabe que são os aspectos mais fundamentais para se viver (feliz)?".

Lucano explica : felices error suo, ou seja, és feliz por engano.  
A Rita  cuida ser possível buscar o que não se teve. Não creio. Tiveste, por exemplo, uma mãe descuidada, ausente, fria. Podes correr o mundo e o tempo: essa mãe que não tiveste, nunca a encontrarás. Se, de facto, encontrasses o que não tiveste,  serias feliz e de uma forma exuberante. Sendo impossível, regressamos a Lucano e à sua fórmula.
Acontece que Lucano tem razão ainda sob outro prisma. As coisas que nos fazem feliz ( um estado intermitente) são obra do acaso. Engano  é aqui sorte, desencontro. Ou seja, não será  através  da Razão que somos, a espaços,   felizes. O  amor de uma vida que começou porque alguém se atrasou, um bilhete de lotaria, um erro  de diagnóstico.
Se a dita felicidade pudesse ser alcançada pelo trabalho árduo, diz-me lá,  Rita, o que  a  distinguiria  da terra lavrada?

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nos teus olhos


Olham-nos como  se lhes devessemos  dinheiro, escreveu  Ruark a propósito do cafre  da foto. Lembro-me sempre desta tirada de Ruark ( até porque o leio  vezes sem conta) quando mergulho vestido  nas novas configurações amorosas em tempos  de sms e redes sociais. Tenho conhecido namorados que  discutem por sms, casais separados que  se insultam por facebook, amantes que se conhecem por email. Tudo sem olhar.
Tenho sobre o olhar interessado de uma mulher a mesma  opinião que Paul Valery tinha sobre a obra prima literária:  qu'il est du tout impossible  d'y rien changer. Síntese  à parte, a ausência do olhar significa, claro, mais coisas.  Tomemos , por exemplo, um Queres ir jantar hoje?/ Não posso/ Está bem então. Ela não o vê a conformar-se e pode entender desinteresse onde talvez haja tristeza  e decepção. E por aí adiante.
 Os  engates na net equivalem aos olhares trocados numa festa. Nos primeiros parece que estamos  a comprar cavalos - Quanto pesas ? Usas preservativo? O que tens vestido? - ou num concurso de TV - Qual o teu filme preferido? E a música? Onde trabalhas? 
Nos segundos, os resgatados à monotonia ( da solidão ou do esforço) falam uma língua universal sem dicionário.


domingo, 19 de janeiro de 2014

Concretizemos então:

R., 35 anos, economista, casada, três filhos, foi seguida por mim em consulta, vive hoje em Bruxelas de onde segue o Depressão Colectiva:

 "Concretizemos então. Quando eu tinha 12 anos o meu pai foi internado no Centro de Alcoologia de Sobral Cid. Digamos que correu bem pois efectivamente deixou de beber. Ainda que fosse um processo demasiado longo para quem já estava tão cansado. Os meus irmão sairam de casa (não me recordo se antes ou se depois, penso que foi antes do internamento). E eu fiquei por lá sem qualquer estrutura de apoio. E mesmo sem os efeitos do alcool no meu pai, continuei a chegar todos os dias a casa depois da escola receosa do que podia encontrar: mais uma discussão entre os dois, nódoas negras, móveis partidos, uma síncope da minha mãe ou mais uma tentativa de suicídio? Não sei como se deve lidar com isto aos 12/13 anos. Eu comecei a parar de pensar (a tentar pelo menos). Ia para a escola, mas não ia para as aulas. Ficava sentada na rua a deixar o tempo passar. Mas faltar às aulas teve um efeito que não previ (burrice). A minha mãe foi chamada à escola porque eu estava em risco de chumbar por excesso de faltas. O regresso a casa foi mais ou menos o óbvio: grande tareia psicológica pela irresponsabilidade de não ir às aulas. Só. Como se mais nada estivesse a acontecer na minha vida, na nossa vida.

Nada como concretizar. Este pedaço destrói todas as tentativas de relativizar  a violência doméstica. Não há nada de cultural, de temporal, de social. Há, apenas, o sequestro de uma infância. E agora?
Aníbal, no seu trajecto da hispânica Cartagena até à primeira escaramuça com Cipião ( pai), nas margens do Ticino, muito teve de penar. Alpes, gelo e fome mas também humanos:  alóbrogues e outros gauleses irascíveis. Juntou-os à sua causa, arrebanhou-os. Esta mulher, como qualquer pessoa a contas com a sua infância, só tem uma hipótese:  transformar os obstáculos em apoios. A alternativa seria ficar fixada  no tempo,  imitar este homem. Como se faz? Em parte, como ela fez. Montou o acampamento, ordenou tudo lá dentro, garantiu que a paz  reinaria nos passos em volta.
O problema é que a vida tem uma dívida para com esta mulher que exibe uma notável compreensão do que lhe aconteceu quando era pequena e  frágil. Essa dívida é uma lesão crónica e ela terá de saber viver com ela, tal e qual como quando perdemos  alguém. Ou seja, aceitar que certos movimentos são dolorosos e não  parar de pensar. Não se trata de resignação, trata-se de justiça: faz tudo o que precisares sem julgar que repões o que nunca tiveste.