R., 35 anos, economista, casada, três filhos, foi seguida por mim em consulta, vive hoje em Bruxelas de onde segue o Depressão Colectiva:
"Concretizemos então. Quando eu tinha 12 anos o meu pai foi internado no Centro de Alcoologia de Sobral Cid. Digamos que correu bem pois efectivamente deixou de beber. Ainda que fosse um processo demasiado longo para quem já estava tão cansado. Os meus irmão sairam de casa (não me recordo se antes ou se depois, penso que foi antes do internamento). E eu fiquei por lá sem qualquer estrutura de apoio. E mesmo sem os efeitos do alcool no meu pai, continuei a chegar todos os dias a casa depois da escola receosa do que podia encontrar: mais uma discussão entre os dois, nódoas negras, móveis partidos, uma síncope da minha mãe ou mais uma tentativa de suicídio? Não sei como se deve lidar com isto aos 12/13 anos. Eu comecei a parar de pensar (a tentar pelo menos). Ia para a escola, mas não ia para as aulas. Ficava sentada na rua a deixar o tempo passar. Mas faltar às aulas teve um efeito que não previ (burrice). A minha mãe foi chamada à escola porque eu estava em risco de chumbar por excesso de faltas. O regresso a casa foi mais ou menos o óbvio: grande tareia psicológica pela irresponsabilidade de não ir às aulas. Só. Como se mais nada estivesse a acontecer na minha vida, na nossa vida.
Nada como concretizar. Este pedaço destrói todas as tentativas de relativizar a violência doméstica. Não há nada de cultural, de temporal, de social. Há, apenas, o sequestro de uma infância. E agora?
Aníbal, no seu trajecto da hispânica Cartagena até à primeira escaramuça com Cipião ( pai), nas margens do Ticino, muito teve de penar. Alpes, gelo e fome mas também humanos: alóbrogues e outros gauleses irascíveis. Juntou-os à sua causa, arrebanhou-os. Esta mulher, como qualquer pessoa a contas com a sua infância, só tem uma hipótese: transformar os obstáculos em apoios. A alternativa seria ficar fixada no tempo,
imitar este homem. Como se faz? Em parte, como ela fez. Montou o acampamento, ordenou tudo lá dentro, garantiu que a paz reinaria nos passos em volta.
O problema é que a vida tem uma dívida para com esta mulher que exibe uma notável compreensão do que lhe aconteceu quando era pequena e frágil. Essa dívida é uma lesão crónica e ela terá de saber viver com ela, tal e qual como quando perdemos alguém. Ou seja, aceitar que certos movimentos são dolorosos e não
parar de pensar. Não se trata de resignação, trata-se de justiça: faz tudo o que precisares sem julgar que repões o que nunca tiveste.