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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Psicoterapia: sucesso e fracasso

A dúvida é um dos nomes da inteligência, arrumou Matamoro na edição que fez do Diccionario Privado de Borges ( 1979). Blas Matamoro  também fez muita coisa finada: um dia hei-de cá  trazer  Cuerpo y Poder- variaciones sobre las imposturas reales. A dúvida então: o que é um sucesso ou um fracasso psicoterapêutico?  Recuso a terminologia. Na dúvida,  opto por vitórias e derrotas.
Ao contrário dos grandes  sistemas  totalitários (psicanálise, DSM, cogntivo-comportamentalistas), gosto de trabalhar  entre Epicteto e Petrarca, reunindo-me  amiúde com S. Agostinho, João do Santos e  Séneca. O velho Freud, o tardio, aparece de vez em quando para o café.
Viver bem é  o alvo. Respeitar a vida, a flecha. Uma vitória  é quando o sujeito consegue viver bem sem esperança. Uma derrota é quando só espera por ela.

domingo, 12 de outubro de 2014

Ruptura



A série, entre  outras vitualhas, serve-nos um curso inteiro sobre a ruptura amorosa. Não sei se a minha guru das  ( boas) séries já  viu a coisa sob esta prisma, como dizem os autarcas, mas arrisco  a repetição.
Quando a série começa, o  par Walter/Skyle  tem cerca de 16 anos de vida em comum, um filho com deficiência física e uma vida pacata. Depois o homem ganha um cancro mortal e a mulher engravida. O casamento sobrevive e melhora. É então que Walter se torna  um druglord das anfetaminas e  a ruptura , ou melhor, as rupturas, se instalam. Em pizzicato.
Skyler, um papel fabuloso, do melhor que  já vi,  representa a mulher inteira e quase-honesta, mas,  sobretudo, a mulher de fibra, a anti-donzela: não se queixa e ninguém  a pisa. É uma combinação encantadora. A sua principal nemesis é a segurança dos filhos.  Quando compreende o verdadeiro alcance das  actividades do marido, agita-se.  A traição de Walter, a sua vida dupla,  não é com uma mulher, é com  a segurança. Os milhões e as mentiras  são o bilhete para Walter  ver Skyler enrolar-se  com o antigo patrão.
Mais tarde,  a ruptura entra numa nova fase. Walter  promete emendar-se e Skyler aceita. O cliché da reconciliação é subvertido: fica-se com o dinheiro e com a segurança.  Skyler ajuda na lavagem do dinheiro. O problema é que as coisas são o que são e Walter retoma  a actividade, ou melhor, as consequências da actividade. Não foi infectado pelo HIV nem engravidou a amante, apenas teve de desatar a matar ex-cúmplices,  é perseguido pelo cunhado, da  DEA, etc.  Skyler,  agora  anti-Medeia,  prefere os filhos e a ruptura não tem retorno. O confronto físico final entre os dois não conta muito, mas  a despedida, sim: Walter assume que tudo que fez não foi, afinal, pela família, mas por ele e para ele.
Este curso geral da ruptura amorosa mostra que, num casamento -  tradicional e com filhos - as prioridades  políticas são negociáveis apenas até um certo ponto. Walter e Skyle têm uma base irredutível, nacionalista, que os afastará sem remédio. O truque, se é que existe, é  nunca ter de  chegar  a negociar a base.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Zona de conforto


Encontrava este termo em jornais e artigos americanos. Nunca imaginei que  viesse a ser  usado num país com tantos mexilhões e da  nêspera do Mário-Henrique  Leiria.
Tecnicamente, podemos  ver a coisa como um artefacto contrafóbico. Do grego zone, cinto, faixa cintura, para o zona latino, aplicado à geografia. Teríamos assim um espaço delimitado que agora parece significar uma espécie de reserva onde os leões  bocejam para os turistas que vêm ver a África.
Duvido que o mexilhão se sinta muito confortável no mar de Moledo e ainda mais que a nêspera do Mário tenha apreciado o que a velha lhe fez. De certa forma, a zona de conforto é o anti-destino.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Lugares comuns

Benjamin ( Infância Berlinense, 1900) e o telefone:  poucos conhecem a devastação que o seu aparecimento causou no seio das famílias. Conta  como se o pai entregava à manivela até se esquecer de si, dominado pelo transe. Benjamin era mais prático: rendia-me  à primeira proposta que me chegava através do telefone.
No outro dia, uma rapariga estava a contar-me  como tinha acabado a relaçao amorosa. Era uma primeira entrevista apenas destinada  a fazer  a história clínica. Loura plastificada, lânguida, deprimida, responsabilizando todos por tudo, a caneta já escrevia sozinha, coitada. Até que  ela me conta as palavras  finais da ruptura de uma  forma que me acordou: ela estava numa cidade, ele noutra. Por telefone? Acabaram por telefone? Diz ela: sim, por sms.
É fantástico como a  tecnologia facilita  a vida, até  a dos  que não a vivem.

sábado, 4 de outubro de 2014

Inércia & obsessão


No tratamento das depressões, a inércia é um adversário de calibre, sobretudo no quadro da depressão ansiosa ( que este pequeno resumo generalista sintetiza). Os antidepressivos, mesmo os da nova geração, não eliminam o problema. A moleza e a desmotivação, para usar termos simples, variam , claro, consoante as condições do doente. O desemprego, o divórcio e a perda são os principais contribuintes.
As ideias: "não se é capaz de fazer nada", "está-se muito cansado", "nada vale a pena". Dito assim, parece  um estribilho depressivo simples, mas o problema é que  muitas vezes estas ideias são construções obsessivas. Este artigo, como muitos, inverte o jogo: analisa a depressão como efeito da desordem obsessiva. O meu tabuleiro aqui é ao contrário: a ideia obsessiva como subproduto do estado depressivo.
O doente convence-se de que nada pode fazer, ou porque não sabe ou porque não adianta. Esta construção irracional é desmentida muitas vezes pela realidade. Até trabalha, até é bom no que faz, até cuida dos filhos, até tem  bom  sexo. Tudo em menor quantidade, claro, mas tudo está presente. A ideia obsessiva resulta do estado depressivo nestes sujeitos particulares, porque são sujeitos que reagem  de uma  forma muito particular  à depressão. São sujeitos que, por variadíssimas razões, não se sentem à altura  da depressão.
O essencial nestes casos  é  dar vantagem ao estado depressivo. Parece bizarro, eu sei, mas a tristeza é racional, a obsessão não. Uma técnica que costumo utilizar é a de ajustar a baixa expectativa: quanto menos  a pessoa se exigir ( não faltar ao trabalho,  agradar-se quando em vez etc), menos combustível tem o motor obsessivo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O affair


Relação extra-conjugal não gosto, sabe-me a pizza com extra  azeitonas. Caso também não: não se trata de um crime ou de um mistério. Affair, ou affaire, fica muito melhor: negócio amoroso.
E é de um negócio que trata. Tive duas mulheres jovens,  que, entre lágrimas, me disseram no silêncio do gabinete que casaram com um  estando já  envolvidas com outro. Quer dizer, combinaram um negócio mas a meio arranjaram novo parceiro. Casaram  à mesma porque o amante já era casado. Sim a pressão social, o restaurante já marcado, pois, mas mais vale um pássaro na mão...
No Amor & Ódio conto outro   caso assaz divertido. Uma mulher enredava a terapia com a indecisão e o sacrifício moral  do affair.  Num belo dia entra-me no gabinete e diz-se  toda contente porque finalmente vai ter a casa com  que sempre sonhou. Moradia, leões de pedra no jardim, piscina. Eu, estúpido, pergunto-lhe se finalmente se divorciou. Ela olha-me como olhamos os insectos ( eu era ainda um nadita inexperiente): Claro que não. É para ir viver com o meu marido e os miúdos".  À minha pergunta de como isso combina com o affair e a situação em geral, despacha-me: Não tem nada  que ver.
No mesmo lugar do cérebro em que nós , homens, temos o comando da genitalia e um pequeno arquivo de mentiras infantis, elas desenvolveram uma sociedade inteira.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Psicoterapia


O meu gabinete  não é nada disto. Tenho uma secretária preta entre a minha cadeira preta e a cadeira preta  da pessoa. Não tenho plantas nem bolinhos. O único artefacto é uma réplica de  desenhos a preto e branco  de pinguins e cães feitos pelo Picasso. Não é uma sala de amigos, é um gabinete de trabalho.
Para ver é preciso deixar de se ver, dizia o Cabeça de Dinamite a propósito dos psicólogos. Sobretudo, deixar de ver grande parte do mambo-jambo publicado nos últimos  120 anos.  Respeitar a pessoa é não lhe aplicar o que nos tentaram ensinar.
A minha batalha é a da automia do sujeito. Muitas formas de a alcançar, muitas formas de a falhar.