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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Boa pergunta


Pela enésima vez: Como é possível ele dizer-me num dia que me ama para sempre e no dia seguinte dizer que tem de pensar e depois acabar? No último mês foram mais duas  mulheres a querer saber.
A linguagem é muito sobrevalorizada. O Silva ama a mulher, não pode viver sem ela, por isso mata-a. O Mário-Henrique  Leiria ( Contos do gin tónico) também explica:

Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.”

Perfeitamente.

Sempre cumpri o que assinei.

Portanto estrangulei-a e fui-me embora.

Dizer, não custa nada; não dizer, ainda menos.


sábado, 8 de novembro de 2014

Controlo/insegurança


É de importância decisiva para a autonomia do sujeito o temple deste par. É transversal ao desconforto, aparecendo em quadros obssesivos e fóbicos, mas também em sujeitos sem indicação clínica. Um excesso de controlo leva à insegurança - já aqui vimos e se quiserem ( re)leiam a Toca do Kafka - mas o inverso também  é verdade. E mais perigoso.
Um adulto inseguro tem muitas camisolas, mas há uma que veste sempre: procura mais o reconhecimento externo do que confia na autovaliação.  Esta sinalização permanente leva-o a uma monitorização invulgar de todas as reacções do ambiente e isto só pode ser feito através do controlo, imperfeito, mas cansativo e ineficaz.
Uma consequência comum  é, por exemplo, o sujeito acabar por fazer  mais para agradar aos outros do que aquilo que quer realmente fazer. E isto, como compreendem, é uma navalhada  no amor-próprio.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Divórcios, filhos


A diminuição do número de filhos, que começou nos anos 80 ( ao contrário do que dizem os aldrabões ), obrigou a uma actualização dos pressupostos parentais. Depois, a facilitação do divórcio ( agora menos  com a crise) criou uma rede de arranjos artificiosos. No meio, a lengalenga como a que  Goucha repetia, excitado, a um convidado no programa : É muito pior para as crianças um casamento de fachada dos pais". Isto porque o convidado disse uma coisa simples:" Não é à primeira crise que os pais se devem separar".
 O convidado dizia uma verdade óbvia, mas crença de que a vida familiar  deve ser um mix de Ídolos com Rei Leão gera reacções idiotas. O trabalho académico e político do lóbi gay, a partir dos EUA, nos anos 60, ajudou gerações a  acreditar na crença. Em parte compreende-se: a família tradicional execrava a homossexualidade. O problema é que a família era apenas o reflexo das categorias culturais vigentes.
Como psicólogo, tenho encontrado consequências muito piores para  as crianças  em casais que se divorciaram do que nos tais casamentos de fachada. E não é porque os papás se separaram: é porque usam as crianças para as noites ( e dias) das facas longas da vingança e do ressentimento pós-divórcio. Ou seja, os miúdos ficam com o pior do casamento de fachada num divórcio de corneta.

domingo, 2 de novembro de 2014

Oásis depressivo ( suite)

O refúgio pode ser uma tumba. Exagero um nadinha, mas se pensarmos em alguém deprimido, o oasis deixa de ser o lugar  aonde se tem prazer em chegar para ser  um covil  de onde não se tem pressa de sair.
Tenho em terapia algumas pessoas nesta fase. Por exemplo,  uma mulher de 40 e tal, com uma doença grave, uma de trinta e pouco, desempregada,  e uma de vinte e muitos, desiludida com tudo ( e com ela própria). Em comum  todas  serem licenciadas - e  especialistas  -e terem uma má relação com o oásis, embora a de 40  tenha progredido bastante.
É curioso que quando estamos  em baixo o refúgio seja mal aproveitado. Sei muito bem que a inércia triste invade tudo, porque já lá estive, mas também sei que não podemos desperdiçar. Nesta fase, invectivo, literalmente, as pessoas: o oásis está do lado delas e não é tempo de desperdiçar aliados.
Se nem no lugar/espaço/tempo do oásis somos capazes de sentir paz, estamos perdidos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

E o qual é o teu?


A forma greco-latina  oasis vem do hamítico ou do copta ouhae/ouhi, lugar onde há um poço ( o árabe usa wahah).  Na zorra que  nos conduz, um oásis é como a beleza para a Cristina: fundamental.
No outro dia, dizia a alguém que me relatava as discussões intermináveis que tinha com marido: não estava casado consigo quinze dias.   Ela já é seguida por mim há muito tempo ( de forma intermitente)  e por isso não levou a mal. Eu levei.
Seja um lugar ou  um ritual, precisamos de um ouhi. Pode ser o bar da esquina, o nosso sofá, o terraço, o que for. Pode conter uma pessoa ou não. O que tem é de haver um poço. Ou seja, algo que rompa o trajecto e que nos convide  a demorar.
A felicidade é difícil, como a beleza, dizia Borges ( por que julgam que trouxe  a Cristina?), o oasis é belo e feliz.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Corpo a corpo

"Sou gorda e pesada - respondeu - mas também sou amorosa". 
Bordenave é o personagem da novela de  Bioy Casares, Dormir al sol ( 1973). É um desgraçado que quer recuperar a mulher internada num hospício. Voltarei ao título porque  tem muito sumo, mas fiquemos hoje com esta tirada maravilhosa.
O corpo está  hoje sob fogo amigo. Recusamos a sua decadência e fazemos  a alegria do IRS de cirurgiões plásticos, esteticistas e ginásios. Ao contrário do que dizem os preguiçosos, a tensão entre o ideal apolíneo e o dionisíaco é velha e clássica.  O corpo belo e perfeito também é velho. O que há de novo é a angústia apolínea. A cinquentona julga que a vida melhora  se eliminar as rugas, a lolita  cuida que tal passa por implantes de silicone nas mamas.
A verdade é que o corpo tem um sujeito que é o seu senhor, não o seu escravo.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Chorar alivia?


"Tens um novo advogado, o dr Bucefálo. Nada na sua aparência  te  faz recordar que ele foi em tempos um general de Alexandre da Macedónia". Adoro o Kafka humorista-depressivo das pequenas histórias  ( algumas nem meia página têm)  e esta é a abertura  de "O novo advogado". Trago-a porque nos pode ajudar a responder à pergunta que titula este texto.
Nem sei quantas pessoas choram à minha frente todas as semanas. O enorme carregador de lenços de papel é mudado de quinze em quinze dias. Este choro é diferente, claro. A pessoa está num contexto terapêutico, costuma aliviar-se ( o que faz muitas  vezes com que eu me veja como um autoclismo). O outro choro interessa-me mais: o solitário. Deixo de fora o choro de alegria, não me interessa nada.
Aprendi que se choramos de angústia antecipada o choro não alivia, mas se choramos por causa do que já se passou melhoramos  um  cadinho. O amargo das lágrimas  depende se somos o dr. Bucéfalo ou um general de Alexandre.