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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Manual de sobrevivência ( 5)

Sinto culpa, muita culpa. Quero livrar-me dela  mas não consigo.
 A veline,   a censura ( da folha de papel  velino na qual  os fascistas  enviavam aos jornais o que pretendiam*), é poderosa. Não sabes, por exemplo, que uma leoa não se sente culpada diante da carcassa da zebra. Sim, já sei, os aldrabões  disseram-te que a culpa da culpa é da religião judaico-cristã. Se o Freud tivesse popularizado mais  coisas do  Sófocles, por exemplo, o Ajax, a coisa piava mais fino.
Trata  a tua culpa como tratarias uma velha amiga: perdoa-lhe os exageros,   mas recorda o passado.


* cortesia Umberto Eco

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Manual de sobrevivência ( 4)

Não me sinto realizado. Não gosto do meu trabalho, não sou valorizado.
Conheço um homem que toda  a vida serrou madeira. Quarenta anos  a serrar madeira. Teve filhos, cães,  caçou, comeu duas vizinhas,  assou leitões,  espancou  um GNR que o chateava, sobreviveu a um cancro.
Vai ter com os idiotas que te convenceram de que um homem se realiza a serrrar madeira: pode ser que te dêem valor.

Manual de sobrevivência ( 3)

Não suporto a perda dele. Estou sozinha no mundo desde que ele morreu.
Convencemo-nos de que somos indivisíveis, mas é falso. Somos feitos de muitas partes. Algumas vamos  perdendo, outras vamos  ganhando. Perder uma maior significa que também somos feitos de partes vazias.
Ou te matas ou deixas que ele viva através de ti: também somos feitos de ficção.



terça-feira, 7 de abril de 2015

Manual de sobrevivência ( 2)

Não consigo decidir entre  o meu marido e o homem que me aparece nos sonhos.
Nem tudo é mau. Por alguma razão, misteriosa, não engravidaste a dormir. 
Quanto ao suposto dilema, não temas. O homem dos teus sonhos visita-te todas as noites e o telemóvel não te trairá. O incómodo é ilusório desde que nunca sonhes acordada.

Manual de sobrevivência ( 1)

Não gosto de mim. Sou gorda, sou feio, sou baixa, sou ignorante.
Problema  incrivelmente  simples de resolver. Convence-te de que és outra pessoa qualquer. Por exemplo,  funda um partido de esquerda, serve a palavra de  Deus, arranja um cão.
Se não funcionar, conta os dias em que te deitaste sabendo que não magoaste ninguém. Ao fim de um mês já te suportas, ao fim de um ano já não precisas de comprimidos.

quinta-feira, 2 de abril de 2015