Muito antes de publicar sobre a perda já predicava na clínica sobre o sistema que conheço bem demais. Mais do que o trabalho, a única coisa que podemos opor ao desastre é a criação. Vem isto a propósito de uma pequena aposta que fiz comigo: se aquela mulher ( Judite de Sousa e só menciono factos públicos) regressar ao trabalho em três meses, está salva. Ganhei a primeira parte...
Comparo uma perda brutal a uma cidade bombardeada. Nos dias seguintes não há nada: água, luz, tempo, crianças a brincar. Aos poucos um homem começa a vender umas batatas velhas, outro descobre um poço e começa a puxar água, uma mulher recolhe dois orfãos etc.
A resposta proporcional, a única que podemos contrapor à destruição é a criação. Mais nenhuma tem a mesma dignidade e força. Vemos assim que não basta o trabalho. Tem de haver uma sobreposição ao fatum e tem de passar pela criação de mais fatum. Pode ser um novo projecto, um novo amigo, criar leitões, o que quiserem.
Sachsenhausen foi o primeiro campo de concentração a usar o Arbeit macht frei ( o trabalho liberta) à entrada ( Hoss copiou-o depois para Auschwitz). Acertaram, as bestas, mas substituiria trabalho por criação.


