Comparo o cair das alturas do coração à queda que se dá de um garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que nos deplore, mas decerto não nos acha ridículos. Se é o grande resmungão que o diz, quem sou eu para contrariar?
Talvez exista uma acentuada diferença de género. As mulheres, em geral, não precisam vingar a queda; os homens tendem a matar o cavalo com requintes de malvadez.
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sábado, 13 de setembro de 2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Aço
Estava há bocado a explicar à C., que tenho em terapia há uns meses, que uma coisa é o problema melhorar, outra é nós melhorarmos. Confusos? Ora vejamos:
Defendo que há coisas que nos acontecem que matam partes de nós. Podem ser genes, episódios, circunstâncias avulsas, o ágape é variado. Ficamos com uma parte doente, aleijada. Ela não tem de melhorar. Uma perda não melhora, um défice qualquer pode não melhorar. O que pode, e deve, acontecer é aprendermos a viver com essa parte , apesar dessa parte. E aí melhoramos, sim, porque a aritmética não engana: se vives com menos vales mais.
No fundo, é ser humano. Os nazis fizeram o percurso contrário. O programa T-4 eliminou cerca de 90.000 doentes mentais, ( incluindo 6.000 crianças) com a ajuda entusiástica da elite médica e universitária alemã, como Werner Catel e Ernst Wenzler. O programa foi centralizado a partir de uma casa em Tiergartenstrasse nº4, no centro de Berlim ( estive lá perto mas na altura não sabia e por isso também não sei se está assinalado), daí ter ficado assim conhecido.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Ansiedade, de novo
Somos capazes de mentir descaradamente, somos capazes de nos masturbar, somos capazes de torcer pelo Sporting contra o FCP, mas não somos capazes de controlar uma crise de ansiedade e o seu valete, o ataque de pânico. Está por fazer um bom estudo filosófico sobre a relação entre as alterações culturais dos últimos 50 anos ( cultura ado, diminuição da natalidade) e dos últimos 150 (materialização da felicidade e síndroma madame Bovary) , que possa explicar esta incapacidade crescente.
Não, não falo das tretas do Lipovetsky ( prefiro um único e... famoso verso do Larkin) e da Himmelfarb. O velho Freud andou lá perto, porque ganhou a vida na alta sociedade vienense e por isso soube de coisas meio século antes.
O primeiro antidepressivo do grupo dos inibidores da monoamina oxidase, a iproniazida , foi originalmente desenvolvido contra a tuberculose. Foi abandonado por incidência hepática mas também porque os doentes ficavam muito, digamos, excitados. O fundo ansioso e fóbico da depressão existencial ( por oposição à endógena) teve a sua primeira resposta com a iproniazida em meados dos anos 50. Bate certo: os achaques da freudiana sociedade vienense demoraram meio século a popularizar-se.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Quem come, cala
Orgasmos melhoram comunicação pós-sexo, algum álcool também; mau sexo cala-nos, mucho álcool também. Continuo a pensar que ele ensina mais do que estes estudos científicos ( leiam, ou releiam, a parte VI), mas aceitemos o desafio da oxitocina.
Mesmo que cumpramos a receita do artigalho, sobra uma insidiosa questão ( que não preocupava Ovídio, se forem à tal parte VI): comunicar o quê?
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Aproveitar
Insisti sempre, nos livros, nos blogues, no tempo da "Ler" , nesta tecla: desperdiçamos imenso. Corrijo o tipo da badana do meu Amor e Ódio: esta vida não é uma longa história de sofrimento, antes de desperdício.
Recuso com naifas a treta do que só quando vemos o fim a aproximar é que resolvemos dar valor à vida. Também recuso o desprezo pelo que há em nome do que virá. São posições esquizo-paranóides. Como se o mundo nos devesse alguma coisa.
Ser capaz de criançar a jogar à bola com um filho, fechar um livro antes de adormecer e pensar na sorte que é ver, comer um pedaço de pão de lei a meio da manhã, seguindo o conselho de Epicuro ( coitado, se soubesse que o seu nome está agora associado a gastrossexuais...).
Aos que desperdiçam, faço minhas as palavras de um croata: recebemos como recompensa aquilo que vos foi dado como castigo.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Ainda a colonização parental
Desenvolvendo um nadinha o que aqui se espraiou. Ainda que a associemos à adolescência ou início da vida adulta, a força da herança da colonização parental encontramo-la nas pessoas maduras, já pais e até avós.
Perdi a conta de maduros que atribuem à herança colonial familiar muitos dos seus problemas, incapacidades, revoltas interiores dilacerantes. Em muitos casos com boas razões para isso, mas não deixa de ser surpreendente a forma como essa atribuição passa um atestado de menoridade às suas vidas adultas. Vale isto para a herança colonial familiar como para as ondas de choque de episódios ditos traumatizantes.
Tento, sempre que sou chamado a ajudar, bater neste ponto: o que somos em adultos é da nossa responsabilidade. Claro que existem casos pontuais de terrível e imorredoira herança, mas são poucos. Na maior parte das vezes apenas arranjamos uma muleta mental que arquiva as nossas fraquezas no museu colonial.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
A perda e a criação
Muito antes de publicar sobre a perda já predicava na clínica sobre o sistema que conheço bem demais. Mais do que o trabalho, a única coisa que podemos opor ao desastre é a criação. Vem isto a propósito de uma pequena aposta que fiz comigo: se aquela mulher ( Judite de Sousa e só menciono factos públicos) regressar ao trabalho em três meses, está salva. Ganhei a primeira parte...
Comparo uma perda brutal a uma cidade bombardeada. Nos dias seguintes não há nada: água, luz, tempo, crianças a brincar. Aos poucos um homem começa a vender umas batatas velhas, outro descobre um poço e começa a puxar água, uma mulher recolhe dois orfãos etc.
A resposta proporcional, a única que podemos contrapor à destruição é a criação. Mais nenhuma tem a mesma dignidade e força. Vemos assim que não basta o trabalho. Tem de haver uma sobreposição ao fatum e tem de passar pela criação de mais fatum. Pode ser um novo projecto, um novo amigo, criar leitões, o que quiserem.
Sachsenhausen foi o primeiro campo de concentração a usar o Arbeit macht frei ( o trabalho liberta) à entrada ( Hoss copiou-o depois para Auschwitz). Acertaram, as bestas, mas substituiria trabalho por criação.
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