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domingo, 12 de agosto de 2018
domingo, 6 de agosto de 2017
domingo, 18 de junho de 2017
Mnemosine
Invocar a deusa da memória. Porque a seguir, como depois do Funchal ou de Arouca ou de tantas outras tragédias, vem o esquecimento disfarçado de condolências e debates intermináveis sobre políticas de fogos e de floresta.
Há uma outra pequena tragédia: o nosso horror à responsabilização. Nos incêndios como no resto, a culpa é sempre dos outros: dos antecessores, do clima, das organizações internacionais. Em Condeixa, a curta distância da carnificina, lançava-se fogo de artíficio hoje de manhã.
Não ha deusa da memória que resista a um povo que tem ( Gil acerta) medo de existir.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
terça-feira, 16 de maio de 2017
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Diário de um psicólogo ( 40)
Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Um tipo vai pedir pela saúde de um familiar e arrisca-se a lerpar. Ou então bate. Ele morreu para nos salvar.
Seja como for, tenho a impressão de que a higienização da fé lhe retira um bocadinho da generosidade.
Ter de ir a Lisboa apresentar o livro ( mesmo sendo com o Miguel Serras pereira, eu sei) faz-me sentir como se fosse andar de avião. Desde novo que uma semana antes de meter num avião é como se o Benfica perdesse todos os dias 5-0.
terça-feira, 9 de maio de 2017
Cenas da vida menor : explicação ( 2)
Pois é. E é intuitivo. E isto também. Pouco me interessa se são duas mulheres ou um homem e uma mulher a criar um filho. O acaso, as voltas da vida, o desejo, são todos factores aleatórios. Para o alvo a que apontei é indiferente, mas para o centro do alvo, não. Como a regra maioritária ainda é a família em volta de um casal de pessoas de sexo diferente, é dela que me ocupo. Até porque a violência, disruptiva e desestabilizadora, é esmagadoramente de autoria masculina.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Diário de um psicólogo ( 39)
As vítimas profissionais são quadros fascinantes 1% do tempo, entediantes na eternidade. Esse 1%, apesar de tudo, merece nota. Entre muitos casos, tenho uma rapariga em terapia que demorou um ano inteiro a despir o fato.
Se os depressivos de lei acham que tudo o que lhes acontece é culpa deles, as vítimas profissionais entendem o contrário: são as almas mais puras da evolução e se sofrem é porque o mundo conspira contra elas. Com frequência, mas nem sempre, esta característica inscreve-se numa personalidade narcísica, aquilo que Kohut ( às vezes os psicanalistas acertam) definiu como o falso self, um eu em forma de balão. Inchado mas cheio de ar.
A ralar cenouras para salada russa. Antes da terceira fartei-me e por isso resolvi que era demasiada cenoura crua para os intestinos. Chama-se ( reduzir ) a dissonância cognitiva.
Dou sempre nomes catitas à preguiça.
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Apresentação: o Miguel Serras Pereira.
Não gosto, só fiz uma nos anteriores quatro livros, mas tem de ser. Será em Lisboa, sábado, dia 20, no Clube Literário, e será feita pelo Miguel Serras Pereira. Depois darei pormenores.
É o caso típico em que o apresentador vale muito mais do que o autor; este precisa que compareçam para vender uns exemplares. Venham pelo Miguel, cujas traduções comecei a ler aos 17-18 anos.
terça-feira, 2 de maio de 2017
Cenas da vida menor : explicação ( 1)
A da contracapa diz quase tudo ( clicar para aumentar), mas não tudo. Por exemplo, não diz por que razão escolhi a forma. Quatro histórias em vez de quatro de casos reais.
Ao contrário do que costuma dizer um divertido leitor ocasional deste blogue, não tenho ambições literárias: escrevo porque me falta a coragem de não o fazer ( Kraus) .Podia ter pegado em quatro casos reais e comentar . O livro traria então as inevitáveis larachas psi ou, na hipótese benigna, redundância inofensiva. Escolhendo histórias, pude assinalar as principais categorias que, do meu ponto de vista, revestem o essencial da violência sobre mulheres.
O princípio axial é o domínio masculino fragilizado pelas novas disposições femininas.
Na primeira história, já a referi aqui, um tipo não suporta a ex-mulher livre e disponível para terceiros. Só a consegue imaginar assim. Ambiente rural e o cliché obrigatório do álcool: coleccionei dezenas de casos desses na consulta.
Na segunda, trabalhei um casal de namorados: precisamente para opor à primeira história. O ciúme e a possse não precisam da idade nem do vinho, mas a protagonista é a mãe do rapaz que mata a namorada. Trabalhar a culpa.
Na terceira, uma mulher morre por acaso. Bentudo quer matar o marido da amante, um tipo execrável, doente e velho. Interessou-me mostrar duas categorias: o velho vínculo do casamento formal e o lado caótico da violência.
A quarta história é outra conversa, fica para mais tarde...
segunda-feira, 24 de abril de 2017
Diário de um psicólogo (38)
Na clínica passo às pessoas uma mensagem cada vez mais ambiciosa e difícil : O dia chega ao fim sem os teus se terem magoado, nem teres magoado ninguém, e as tuas pernas mexem-se? Então foi um grande dia.
Ser um conservador ( sobretudo da liberdade) em vez de um reaccionário, permitiu-me comer os melhores filetes que já fiz: os de bacalhau fresco.
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Diário de um psicólogo ( 37)
Casanova foge para Munique na companhia do padre Balbi ( que fazia amor desastradamente com todas as criadas das várias estalagens em que ficaram) e encontra a condessa Coronini, uma conterrânea ( veneziana) de 71 anos. Esta promete dar ao príncipe Eleitor uma palavra em favor de Casanova ( sabe-se lá porquê...) e lá vai ele reunir-se com o confessor do Eleitor, um jesuíta.
O padre conta-lhe que a cidade está envolvida num milagre: o corpo da imperatriz, ainda em exposição pública, mantém os pés quentes. Casanova foi confirmar. Sim, os pés continuavam quentes, porque virados para uma lamparina acesa.
O verdadeiro milagre é sempre a crença das gentes.
No outro dia voltei a fazer o número. A mulher, distraída na sessão, permanecia alheia a qualquer trabalho intelectual. De repente varri para o chão quase tudo o que tinha em cima da mesa.
- É para você prestar atenção.
- Fiquei foi assustada...
- Ora aí está.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Diário de um psicólogo (36)
O episódio dos miúdos no hotel espanhol é um epítome da doença de uma geração: da minha.
Engarrafam mil miúdos num autocarro para a viagem que lhes dizem ser a da vida deles e enfiam-nos num hotel. Surpresa: os miúdos portam-se mal. E muito bem.
Esperavam talvez os paizinhos que os miúdos lessem Schopenhauer, fizessem ioga e adoptassem gatinhos. Como não aconteceu, e muito bem, culpam os garotos.
Envelhecer bem é não nos comportarmos como garotos, mas deixar os garotos comportarem-se como garotos.
Mais decadência. Dou por mim a comprar bacalhau fresco. Como um velho elefante cujos molares estão gastos e suportam mal as memórias do bacalhau autêntico entre os dentes.
Bem, só desta vez.
Bem, só desta vez.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Cenas da vida menor: o poder de quem decide
No outro dia foram divulgadas imagens de um homem a afogar uma mulher. Pelo menos de um homem a mergulhar a cabeça de uma mulher num rio. Passados dois dias soubemos que o homem foi detido e colocado em prisão preventiva.
Comparemos com o massacre de Barcelos. O autor confesso andava em liberdade ( pena suspensa) depois de ter espancado a filha grávida e a sogra. A mim parece-me que o homem tinha escrito desastre na testa. A mais gente também pareceu, porque foi-lhe destinado um plano de recuperação. Tal plano nunca foi cumprido e o homem degolou as testemunhas do caso.
Imaginem que as imagens do homem a afogar a mulher, pelo menos a mergulhar-lhe cabeça num rio, não tinham sido vistas por milhões de espectadores. Acreditam que o juiz o remetia para a cadeia? Eu não, porque existem dezenas de casos de homens que matam/espancam as mulheres enquanto aguardam em liberdade o julgamento por violência anterior. Neste o caso o juiz deve ter pensado duas vezes...
Há uns anos cheguei a discutir com a Ana o projecto de um livro sobre violência (já não me lembro exactamente dos detalhes) . Apertar com o poder de quem pode decidir vale mais do que mil campanhas de TV disparatadas.
terça-feira, 11 de abril de 2017
Diário de um psicólogo (35)
Um velho ferroviário do Sporting, de que gosto imenso, está cada vez mais velho e cada vez mais do Sporting. Mima-me, traz-me coisas da horta e nunca se zanga quando abato os lagartos com subtileza de talhante ( sim, o corte certo da carne é meio caminho para a felicidade).
É de um mundo que já não existe. Não tem WhatsApp, email, airs bags no carrro ( que já não consegue guiar), créditos nem SportingTV. Um fantasma bom e triste, que me mostra como as coisas que foram ainda são, já não podendo ser.
Agora quando acordo a meio da noite vou à cozinha beber leite de soja e volto a dormir: a decadência sem lactose.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
Diário de um psicólogo ( 34)
A única vez que se embebedou. Bebeu tudo o que havia. Foi no casamento do tipo que teve sexo com ela quando tinha entre 9 e 14 anos. Ligações familiares obrigatórias. Muitos anos mais tarde, perdeu um filho com 14 anos. Hoje tem dois, uma pequena empresa e uma distracção apaixonada: flores.
Faz sempre cara alegre ao mau tempo, passamos metade da consulta a rir.
Às vezes agradece-me a disponibilidade e a atenção. Se soubesse o bem que me faz e como compensa o tempo gasto com idiotas pomposas que fazem um drama de uma unha partida...
A ler e reler detalhes da presença soviética no Afeganistão. A palha com que em Herat os primeiros insurgentes enchiam a barriga dos comunistas afegãos ( depois de os terem esventrado) dever ser a mesma que há na cabeça dos que explicam, com os dedinhos em ponte, que o fanatismo na zona começou com a invasão do Iraque.
terça-feira, 4 de abril de 2017
Cenas da vida menor : a representação da violência ( 2)
Só numa das histórias do livro é que a violência é indirecta: Berta morre por engano, Bentudo queria matar o marido da amante. Apesar de tudo, é a história em que a violência é mais evidente. Todas as vítimas o são por engano. Na história, a amante de Bentudo nunca se pôde separar do marido.
O marido, o namorado, o companheiro, podendo escolher, não matam as mulheres. Podendo escolher, preferem que elas façam o que eles querem. O não-me deixes ou o não-te-divorcies é um enunciado claro: se as coisas forem como eles querem, tudo se passa bem. Isto significa que a impotência é muito mais do que um assunto de erecção , mas também descobre outro mato.
Esse mato passa pela socialização da posse. Na primeira história, a mais tradicional, o homem remói, em bebedeiras e em conversas de gajos, as histórias das gajas que se separam e andam agora aí frescas e apetecíveis. Cada gaja de que os amigos falam é sua gaja, a sua ex-mulher. É ela que é comida por este e por aquele, é ele que é o pós-corno.
domingo, 2 de abril de 2017
Cenas da vida menor: a representação da violência ( 1)
Vivemos num país bem melhor , em termos de direitos das mulheres, do que o dos nossos avós. Um argumento muito utilizado é o de que a violência sobre as mulheres tem apenas agora mais visibilidade.
Também vivemos num país em que é agora crime maltratar um gato ou um cachorro. Curiosamente, vivemos num país em que se pode maltratar - espetando-lhe ferros - um touro e até pedir dinheiro para assistir ao acto*.
Não consta que o facto de ser mais visível ( maior número de queixas e maior atenção mediática) a brutalidade sobre cães gatos atenue ou explique o facto de touros serem maltratados nas arenas.
Até porque muito do que ocorre não é reportado ( veja-se este exemplo canadiano que não deve diferir muito do nosso) , o argumento da visibilidade mediática assume-se como néscio.
O ponto essencial é o de como a violência sobre as mulheres nos pode dar uma representação da violência da transformação das relações de poder entre os sexos.
* sou um aficionado.
* sou um aficionado.
domingo, 26 de março de 2017
Barcelos, um massacre banal ( 2): o silêncio da Igreja portuguesa
Se pesquisarmos Igreja portuguesa + violência doméstica obtemos os mesmos resultados que obteríamos se pesquisássemos Igreja portuguesa+ dildos . Por outro lado, todos nos habituámos a ver e a ouvir clérigos portugueses a falar sobre tudo: política, troika, futebol, drogas etc.
Sendo que a grande maioria dos crimes contras as mulheres são cometidos em zonas rurais ou semi-rurais, isto talvez cause admiração. Nas pessoas com défice de atenção.
A Igreja não usa o poder político e mediático de que dispõe porque não quer. E não quer porque está historicamente vinculada às bases mentais e culturais na quais assenta o pressuposto. A mulher tradicional, a mãe de família, tem por obrigação a obediência ao marido. O divórcio, a maior causa da morte das mulheres é, ainda, um inimigo da Igreja. Como dos maridos assassinos.
O erro, para não falar da estelífera hipocrisia, da Igreja é monumental, basta reler Ratzinger. A família tradicional devia ser o alvo da atenção. Preferir a bolorenta ideologia masculina da dominação ao aperfeiçoamento dos novos modelos familiares é mais um prego no caixão da doutrina social cristã.
sábado, 25 de março de 2017
Barcelos: um massacre banal
Tão banal que nem o DN nem o Público hoje o trazem na capa. Se isto não é normal, o que é normal?
Nas campanhas contra os queruscos, na Germânia, os romanos empregavam um verbo para definir as razias que faziam nos campos: vastare ( esvaziar) . O nosso devastar inclui o prefixo latino de ( totalmente). Ou seja, esvaziar tudo.
A diferença do massacre normal para as pequenas matanças diárias, ainda mais normais, tão normais que talvez sintamos a falta delas se um dia acabarem, ou se se reduzirem, é ...nenhuma. A devastação de uma só família não vale menos do que a de três ou quatro.
Não vale a pena explicar que se quatro activistas ambientais , ou imigantes, ou ciganos, ou activistas LGBT fossem degolados em meia hora numa aldeia minhota , a comoção na Lisboa mediática letrada era brutal. Medidas urgentes eram exigidas. E , sem dúvida nenhuma, com toda a razão.
Só podemos especular sobre a indiferença. Desde a disfuncional pulseira electrónica do Manuel Palito ao sossego com que o alegado autor do massacre de Barcelos vivia num sítio onde viviam testemunhas do espancamento que ofereceu à filha, à ex-sogra e, provavelmente , à ex-mulher.
Talvez a máquina judicial e a mediática-lisboeta pensem o mesmo: são coisas lá deles, de matarruanos, de terras de couves e gado.
Serei eu porventura a estar errado . Voltemos aos romanos. Massacre radica vagamente em macacre, macecle, termos franceses antigos derivados do macellum romano: talho.
Nada mais vulgar do que um sítio onde se cortam costeletas.
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