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domingo, 26 de março de 2017

Barcelos, um massacre banal ( 2): o silêncio da Igreja portuguesa

Se pesquisarmos Igreja portuguesa + violência doméstica obtemos os mesmos resultados que obteríamos se pesquisássemos Igreja portuguesa+ dildos . Por outro lado, todos nos habituámos a ver e a ouvir clérigos portugueses a falar sobre tudo: política, troika, futebol, drogas etc.
Sendo que a grande maioria dos crimes contras as mulheres são cometidos em zonas rurais  ou semi-rurais, isto talvez cause admiração. Nas pessoas com défice de atenção.

A Igreja não usa o poder político e  mediático de que dispõe porque não quer. E não quer porque está historicamente  vinculada às bases mentais e culturais na quais assenta o pressuposto. A mulher tradicional, a mãe de família, tem por obrigação a obediência ao marido. O divórcio, a maior causa da morte das mulheres é, ainda, um inimigo da Igreja. Como dos maridos assassinos.


O erro, para não falar da estelífera hipocrisia,  da Igreja é monumental, basta reler Ratzinger. A família tradicional devia ser o alvo da atenção. Preferir a  bolorenta  ideologia masculina  da dominação ao aperfeiçoamento dos novos modelos  familiares é mais um prego no caixão da doutrina social cristã.



sábado, 25 de março de 2017

Barcelos: um massacre banal

Tão banal que nem o DN nem o Público hoje o trazem na capa. Se isto não é normal, o que é normal?

Nas campanhas contra os queruscos, na Germânia, os romanos  empregavam um verbo para definir as razias que faziam nos campos: vastare ( esvaziar) . O nosso devastar inclui o prefixo latino de ( totalmente). Ou seja, esvaziar tudo. 
A diferença do massacre normal para as pequenas matanças diárias,  ainda mais normais, tão normais que talvez sintamos a falta  delas se um dia acabarem, ou se se reduzirem, é ...nenhuma. A devastação de uma só família não vale menos do que  a de três ou quatro.


Não vale a pena explicar que se quatro  activistas ambientais , ou imigantes, ou ciganos, ou activistas LGBT fossem degolados em meia hora numa aldeia minhota , a comoção na Lisboa mediática letrada era brutal. Medidas urgentes eram exigidas. E , sem dúvida nenhuma, com toda  a razão. 


Só podemos especular sobre a indiferença. Desde  a disfuncional pulseira electrónica do Manuel Palito ao sossego  com que o alegado autor do massacre de Barcelos vivia num sítio onde viviam testemunhas  do espancamento que ofereceu  à filha, à ex-sogra e, provavelmente , à ex-mulher.
Talvez  a máquina judicial e a mediática-lisboeta pensem o mesmo: são coisas lá deles, de matarruanos, de terras de couves e gado.


Serei eu porventura  a estar errado . Voltemos  aos romanos. Massacre  radica vagamente em macacre, macecle, termos franceses  antigos derivados do macellum romano: talho. 
Nada mais vulgar do que um sítio onde se cortam costeletas.




sexta-feira, 24 de março de 2017

Diário de um psicólogo (33)

Julgo que já  falei dele. Três suicídios na história familiar ( linha paterna),  divorciado, em alcoolismo agudo. Bom homem.  Não dá um berro, nunca levantou a mão aos filhos ou à ex-mulher. Voltou ontem. Ainda ensimesmado, mas já parece outro. Uma longa estrada, mas às vezes ganhamos  o dia.


Ao almoço  apanho os anúncios do Audição Activa. Agora já pode ouvir  o que dizem os seus familiares, já pode participar nas reuniões sociais.  Pergunto-me que pessoa se sujeita voluntariamente a esta trepanação.





quinta-feira, 23 de março de 2017

Diário de um psicólogo (32)

Coincidiram ontem  três terapias, em curso, de volta do mesmo binómio cinotécnico: aceitar e adaptar. 
Aceitar o que  a vida nos trouxe é reprimir a ilusão  narcísica de que merecíamos mais; adaptarmo-nos é não desistir dela. Nos intervalos, morangos e champagne ( a versão jet set) ou cerveja  e futebol ( a minha).

Nem de propósito,  segunda lesão consecutiva;  no tendão do bíceps, com derrame para o deltóide anterior. Tenho de passar para o golfe.

terça-feira, 21 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 31)

Já estou mais desconfiado  das novas línguas de bacalhau.  Estava habituado à cor marfim das anteriores.  Ainda não as fiz, óbvio, porque estão  a marinar  na receita da Bé. As expectativas.
A Expectativa é a amiga gorda da Esperança. É mais calma e descontraída. Ninguém aguarda o resultado de  uma biópsia  com a expectativa de se safar; tal como nenhuma grávida está de expectativas.
Ainda assim gosto de ambas. Há o tio, o Pessimismo blasé. Fuma cachimbo, usa lenço ao pescoço, masturba-se aos sábados  e brinca com comboios. Continuo a gostar mais delas: acreditam mais na vida do que nelas.


As minhas línguas nunca ficavam como as da Bé, do Carrossel, na Cova Gala, terra de pescadores. Um dia  apertei-a. Levou-me à cozinha e mostrou-me a marinada. As expectativas precisam sempre de uma boa professora.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 30)

  
Esta senhora foi salva dos nazis pelo Raoul Wallenberg em Budapeste. Em 1945, o Raoul  foi convidado pelos soviéticos a visitar o paraíso  socialista e desapareceu. 
Raoul  teve de mentir muito para salvar centenas de judeus. A mentira terapêutica às vezes funciona. Só às vezes.


Depois das da Lugrade, as da Caixamar. São línguas  de bacalhau islandês, mais amarelas, bom aspecto. Vamos ver, não gosto de mudar. O problema da expectativas.