email para contactos:
depressaocolectiva@gmail.com

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 15)

Uma diferença elefantina entre eles e elas: o compromisso. Elas ligam-se às coisas como  se o mundo acabasse se falhassem. Pode ser um filho com más notas ou a doença da mãe velhota. Eles dispersam-se como espermatozóides. Está bem de uma maneira e está bem de outra qualquer. Claro que me identifico com eles. Claro que aprendo  com elas.

Com este frio, treinar logo de manhã. Oito e meia. Dois graus .Corrida, saco, pesos.
É bom fingir que se está vivo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (14)

Se sobreviver , não me imagino  a levar o netinho à pastelaria no intervalo da hidroginástica. Pior só regressar ao jardim-escola João de Deus.
É verdade que vejo na clínica muitos avós satisfeitíssimos com essas actividades. Lembro-me sempre do Calvin a procurar a costura da lobotomia  na cabeça da Suzie quando ela dizia gostar muito de ir para a escola.

Três chávenas de café bem quente durante a manhã. Os estimulantes modernos ( e ninguém os descreveu como Balzac) são eficazes e viciam bem.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (13)

Continuo a acordar  muito cedo. Sete e pouco. Correio para terapias em curso. Como foi a semana, como se resolveu aquilo etc. Uma ou outra mensagem de desespero: desaparece a lassidão e a pessoa de repente está ao pé de mim. Resposta imediata, plano de acção, incentivo. É o trabalho.


Mortes na família. A vacina que levei há muitos anos ( a morte de um filho)  tornou-me um velho gladiador desinteressado e arrogante. Combato isso também. A arena é de todos, somos todos irmãos.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (12)

Como  as pessoas constroem laços é mais interessante do que a forma comos os rompem. Sim, há na ruptura, sobretudo na lenta, um vivacidade tenaz. Ainda assim, na construção do laço habita um contraplano. Um pouco como um tipo que se engana na estrada mas não volta para trás.

Nas terapias há gente que me  esgota. Sugam-me  a energia, como dizem os tontinhos do reiqui. Bem, é compensar. Uma sesta impecável com a voz do Attenborough a descrever  a vida dura  de um tigre de Bengala.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (11)

Quando começam a morrer ou a ficar doentes  os da nossa geração   e das nossas relações ( excluo as ditas celebridades),  sói dizer-se que tomamos consciência  do peso do tempo e da idade. Não entendo  bem por que motivo uns quilos  a mais ou uns dentes a menos não fazem o mesmo trabalho.

Estou melhor da insociabilidade. Cultivo contacos pequenos, mas regulares. Brevíssimos. Passo por simpático e bem disposto. Os búfalos cafres também conseguem-se esconder-se atrás de uma moita.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (10)

"Foi por causa do Ronaldo e da bola de ouro. Há dois anos, quando ganhou a terceira. Perguntei-lhe quando  foi a primeira, insisti e ele começou a barafustar; depois bateu-me. Foi a última vez que me bateu".  Ela tem quase setenta anos e ouvi isto ontem. Qualquer  pretexto  serve. Lá  dizia o cardeal de Retz: o Bem dá muito trabalho, o Mal faz-se sem esforço.

Fui para o terraço às 06.50h. Lua cheia misturada com o primeiro esboço  do dia. Tirei fotografias. Estúpido. Devia estar a dormir.