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domingo, 3 de novembro de 2013

Do prazer

Lembro-me de uns idiotas que nas caixas de comentários de um jornal criticavam uma professora que se queixava dos cortes: o pecado da mulher era ter o cabelo arranjado. Insidiou-se um anátema: só pode protestar quem não se der ao prazer. Nenhum prazer.
Isto leva-me, se bem me lembro, como dizia o grande Vitorino, ao meu arquivo de prazeres proibidos. À cabeça, uma doente cuja história já contei aqui.  A morrer devagarinho de um carcinoma espinocelular ( tumor no nariz), o seu maior prazer era receber  a filha mais nova que chegava da escola. Lanchar leite com bolachas. Os dos velhos  carregados de medicação que não dispensam um copito também me alegram: é sempre vigoroso ver a vida a estrebuchar. O mais importante é, no entanto, esta anomalia histórica que organiza a nossa vida. Não se pode ter prazer se estivermos nos  braços da crise ? Pode  e deve.
O prazer é constitucional. O seu tribunal está na amígdala cerebral e não meteu férias. Ele  até é obrigatório. Uma das minhas  recomendações habituais a alguém que está na mó de baixo é que compense. Uma hora  extra de sono, uma cozinha por arrumar, um livro cuja  releitura estava  a reter. É uma escolha pessoal. Eu antecipo. Se sei que vou ter um dia de cão, ou se fui surpreendido por um dia de chacal, tiro da caverna um presunto bísaro, abro  um Papafigos e acendo uma Partagas. Amanhã? Os estóicos  não pensam nisso.  Tira o sono.

6 comentários:

  1. Saberá, sem dúvida, Filipe, que escreveu aqui um post budista.
    Ou actuante, o que significa que vou já dizer-lhe a minha razão contra os quizz profissionais. Ou já disse, tanto faz.

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    Respostas
    1. Náaaaa...os budistas não comem bísaro.

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  2. Perfeito, é mesmo assim, pelo menos enquanto a constituição não for revista.

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  3. Onde o Filipe escreve bísaro um budista não estóico lê mangas :)

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  4. Bom conselho, Filipe. Não te esqueças é que a pobreza (ou crise financeira, como queiras) provoca ansiedade e até embrutecimento, pouco favoráveis às delicias do prazer. E a crise da doença é diferente da crise financeira. Quanto ao penteado, talvez seja mais uma questão de dignidade do que prazer. Para os idiotas, é indiferente.

    caramelo

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  5. ao seu comentario a alexandra g. :)
    ao post, mas não faz toda a gente assim? Compensa.

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