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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Não esperes nada do dia de amanhã





As coisas estão sempre a mudar na saúde mental. Tenho no meu arquivo um relatório  escrito pelo meu pai, nos anos   50, a explicar ao tribunal que a epilepsia não é um desvio da conduta, nem sequer uma condição psiquiátrica. Tenho também muitas actas de congressos psiquiátricos  dos anos  60, de várias partes do mundo, onde se estabelece que  a homossexualidade é uma doença mental. Isto podia levar-nos para a diferença entre  um conservador liberal e um tradicionalista ou para o velho debate sobre o poder  político e o diagnóstico, mas não é aqui o espaço. Interessa-me outro nevoeiro. Já vimos, em posts anteriores, que a depressão  não é sempre incapacitante. Cruzemos isto com um dos lados da perspectiva estóica: não esperes nada do dia de amanhã.
No gabinete de um psicólogo ou de um psiquiatra o aforisma lerpa logo com " desmotivação", desespero" etc.  O que o antecede, na  ode  de Horácio, se o psi a conhecer, ainda reforça a sentença: despede-te do dia que passou.  A esperança pode ser maníaca ( e é muitas vezes) , o realismo depressivo pode conduzir-nos a outro caminho do bosque.
Não esperar nada do dia de amanhã ( para os estóicos cada dia é um ciclo fechado e independente) pode significar extrair  o máximo do dia de hoje. No meu caso, hoje, escrever, fazer pesos  com o meu filho, jantar uma morcela do Américo preparando uns ovos à florentina alternativos para a minha leopardita  mais nova.
 Amanhã?  Sei lá. Um aneurisma hemorrágico  durante a noite ou outro dia de trabalho. Tanto faz.


5 comentários:

  1. "No meu caso, hoje, escrever, fazer pesos com o meu filho, jantar uma morcela do Américo, preparando uns ovos à florentina alternativos para a minha leopardita mais nova.
    Amanhã? Sei lá. Um aneurisma hemorrágico durante a noite ou outro dia de trabalho. "

    Além de extremamente bom (de Belo), isto é da ordem do búdico, do horizonte possível, distinto das coisas mundanas esvaziadas de sentido como - que dizer? - o resto, ao qual não chamo, por pouco, História (temo pelos arrepios, a febre, quem sabe o aneurisma hemorrágico) ou Agenda (temo pelos arrepios, a febre, quem sabe o aneurisma hemorrágico).

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  2. Tenho 32 anos e estou desempregada desde Novembro do ano passado. Neste momento, ainda posso dizer que o meu maior problema não é de origem financeira (as contas continuam equilibradas). No entanto, estando sem emprego há tantos meses e pela primeira vez na vida, convivo diariamente com a esperança maníaca e o realismo depressivo. Num só dia posso fazer várias viagens entre primeiro e o segundo.

    É impossível, nesta situação, não se esperar nada do dia de amanhã. Espero, espero muito. E não me limito só a esperar: voltei à universidade, candidato-me a variadíssimos empregos. E vou lidando calmamente com a esperança e o realismo.

    Eduarda

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    1. Bom desafio. Vou tentar responder em post.

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  3. Eu acho que o anonimato, neste blogue, é uma fabricação sua, Filipe, em favor do devir profissional.

    É mais do que claro que não precisa de responder :)

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    1. Não percebo que quer dizer, mas não importa, já respondi.

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