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sábado, 5 de outubro de 2013

Rede e suicídio

A ligação perigosa. Não sei se leram  sobre o casal que morreu abraçado na cama do apartamento em Lisboa. Ele com cancro, ela ( funcionário do IPO)  deprimida, filhos longe. Onde quero chegar? Ao fogo ao pé da estopa. Outra vez.
Sim,  há milhares de teorias sobre os suicidas e as piores são as que generalizam. Em mais de vinte anos de trabalho  não consegui encontrar dois casos  iguais. A ligação perigosa é sobre  os factores, melhor, sobre a combinação de factores. Se lerem os dados disponibilizados pelas várias agências, oficiais e não-governamentais, concluem que  o apoio psico-social, em rede e de proximidade, pode ter efeitos  preventivos, mas que o melhor suporte é outro.
A rede familiar é a melhor e mais eficaz arma dissuasora do suícidio. Sempre que tenho à frente alguém que elabora sobre  a possibilidade de deixar de ter problemas com o IRS, tento colectivizá-la. Por ex., " não somos só filhos"  ou não somos só pais". É uma forma de trazer  Hemingway ( nenhum homem é uma ilha isolada), uma forma às vezes derrotada, é certo, de ligar o humano a outros humanos, como se o suicídio incendiasse a sala familiar.
Assim, o movimento inverso é o mais justo. Na ausência da rede familiar, a comunidade deve actuar. Tem de actuar.

15 comentários:

  1. 2 casos de familiares bem sucedidos na vida, ambos viúvos com muita saúde e próximos dos 80.
    ambos saíram pela janela de andares altos.
    nunca percebi a razão

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  2. O Filipe chega aqui e prescreve uma inversão nos modelos sociais como quem, em post ido, anota a ementa apetitosa do dia. Assim pudesse ser, mas sabe-se que a comunidade assenta no núcleo reduzido de pessoas ao qual chamamos família e que este, desintegrado como se encontra, apesar de tudo não é de fácil substituição, muito menos por essa quimera à qual chamamos comunidade. Diria que vamos - socialmente falando - de solidão em solidão.

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    1. Não inverto , se reparar bem. Sou é pragmático. Na ausência do laço próximo, qualquer laço, Alexandra. Qualquer laço.

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    2. Bem sei que tenta ser pragmático (nada como um para reconhecer outro). Se lê (?) o que escrevo no meu tasco terá reparado há muito tempo que a minha aposta na família não se esgota no núcleo tradicional. Seja como for, as circunstâncias actuais não vão só fragilizar ainda mais esse núcleo como vão agudizar o sofrimento da comunidade.

      O sentimento de estranheza de tudo isto é confrontar "família" com "comunidade" e perceber que, à semelhança do passatempo clássico, não existem diferenças a assinalar.

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  3. Um dia vi na BBC um homem suicidar-se em frente às camaras :
    Uma salinha,uma pequena mesa com uma jarra com flores,um sofa e um casal de meia idade nele sentado de mãos dadas. Ao homem é dado um copo com um liquido que ele tranquilamente bebe. Imediatamente debate-se sufocado tentando respirar para logo ficar inerte,morto.
    O local: A Dignitas em Zurique e estas imagens são de uma horrorosa banalidade e o meu pensamento vai para FNV e outros como ele,que travam um combate tão desigual para tentar preservar o valor supremo da vida humana..

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  4. Sabe, há pessoas que estão a morrer como Antígona.
    Ben haja.

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  5. Só sei dar testemunho do inverso. Ao dar assistência a pessoas já acamadas e muito dependentes verifico que muitas delas se agarram à vida de uma forma extraordinária. Em situações limite em que muitos de nós pediriam para partir ou se deixariam partir há um sorriso, um brilho nos olhos uma preocupação com as pequenas coisas que me levam a pensar que a grande pergunta é 'O que é que nos faz querer continuar a viver?'

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  6. Falta algo no suícido...é o i. Tem qualquer coisa a mais na ligação perigosa...é o a.

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    1. o i não faltava, o a estava a mais
      obrigado

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  7. Filipe, não há dois casos iguais, pois não, mas.... Eu vejo isto assim: temos uma culinária rica, podemos comer um prato diferente todos os dias do ano, imensos ingredientes e combinações. Mas há uma coisa comum a todos eles: o sal. Há quem se contente com pouco e quem precise de mais. Claro que também há os vegetarianos, os que apenas precisam da quantidade natural de sal dos alimentos, os que compensam o sal com o limão ou com especiarias. O dinheiro é o sal. Não é fácil suportar a vida sem o sal e menos fácil é suportar o racionamento súbito do sal. Todas as pessoas têm um limite e não há dois limites iguais, a crise financeira apenas veio aproximar cada um um pouquinho mais do seu limite. Sobre as estatísticas, não sei nada, mas adivinho alguma coisa trágica. Há noticias, aqui e ali, reveladoras.
    Parafraseando uma frase de um debate célebre, noutro lado, as pessoas são o que são; umas mais frágeis, outras mais fortes, umas mais solidárias, outras menos, há pais que abandonam os filhos, filhos que abandonam os pais, etc. É porque as coisas são, assim, o que são, que, para as compensar, é preciso criar uma rede de apoio estatal, psico social e, também, financeiro.

    caramelo

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  8. Caro FNV,

    Não é Hemingway, é John Donne. E, neste caso, a diferença de época conta muito.

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  9. sim, claro, no adeus ás armas, mas percebe-se o sentido,

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