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sábado, 25 de janeiro de 2014

Ansiedade e treino (I)


Estou a desenvolver uma rede terapêutica com várias pessoas que sofrem de diferentes tipos de ansiedade. O grupo ainda é pequeno, vou adicionando aos poucos, e, nunca se tendo conhecido,  as pessoas beneficiam das experiências alheias. Digamos que é um psicodrama virtual em que funciono como canal de comunicação e de orientação, com a vantagem de muitas vezes poder ser feito à distância ( mais barato e prático). Dou preferência a quem não esteja sob medicação ansiolítica ( embora não seja um obstáculo) porque o objectivo é desenvolver capacidades de aprendizagem no lidar com os sintomas.
Um ponto fundamental, como em qualquer plano de treino, é adequar  os exercícios às características da pessoa. Uma rapariga estudante que viva sozinha não beneficia da mesma instrução de um mãe de família que faz dez horas por dia numa fábrica. Da mesma forma, um advogado apressado necessita de um treino  diferente do de um reformado angustiado.
Tal como insinuei aqui, a base é  a compreensão de que um determinado estado emocional  não tem de corresponder necessariamente ( sempre) a um respectivo registo comportamental. É a partir daqui que se constrói o plano de treino. Seja uma ansiedade difusa, uma inclinação compulsiva ou uma matriz fóbica, a primeira batalha é decisiva. As pessoas ficam tão habituadas a ser dominadas pelo estado ansioso que é trabalhoso virar  a mesa.
Um exemplo prático. Tal como num calendário de cefaleias, a pessoa é instada  a fazer um registo das situações que a põe mais ansiosa.Visita à sogra, reunião com o chefe, um a noite sozinha em casa. Se conseguirmos  bispar contextos marcadamente  ansiógenos,  a pessoa pode antecipar, preparar o exercício. Depois, o essencial é dizer isto ao sintoma: podes estar a controlar-me, mas pelo menos decido onde me controlas. Significa que um dos exercícios é alterar o  lugar ou a tarefa. É aqui que é necessário ter estudado bem a pessoa - as suas  rotinas, dificuldades, idiossincracias - de forma a que as técnicas sejam ajustadas e exequíveis.
Parece pouco, eu sei, mas é muito.

6 comentários:

  1. Tenho uma mana e um cunhado psicólogos, tive um namorado psicólogo, trabalhei dois anos em part-time num psiquiatra conversador.

    O que eu quero saber é isto:

    O Filipe tem situações ansiógenas (tão mais bonito escrever anxiógenas, mas enfim)? Como é que lida com elas, sabendo que não pode zarpar dali para fora? Mais,mantendo todo o profissionalismo e charme do mundo?

    __

    "Significa que um dos exercícios é alterar o lugar ou a tarefa."

    so nice, Filipe, so nice to say.

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  2. Como um prisioneiro comum. Mesmo numa cela de 10m2. Se eles conseguem, nós conseguimos.

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  3. é mais reclusos de alguns cm, que estão em permanência connosco. não há aqui possibilidade de alteração de lugar. resta domar a fera.

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  4. Esopo, numa das suas conhecidas fábulas, fala-nos do urso que no meio da floresta afia as garras no tronco de uma árvore quando uma raposa se aproxima e lhe diz :”Urso porque fazes isso se não existem perigos por perto ?”. E o urso responde :”Porque quando eles surgirem vou ter mais em que pensar do que em afiar as garras”.

    A história creio que traduz bem o que Seneca quiz dizer com o seu conceito de “praemeditatio malorum”, ou seja que se deve imaginar o pior cenário possivel como treino para enfrentar a adversidade de uma forma racional e calma, o oposto portanto do inconsequente “pensamento positivo” agora em moda.

    “É em tempos de segurança que o espirito se deve preparar para as dificuldades; enquanto a fortuna sorri é que temos de nos fortalecermos para as suas reviravoltas:” (Seneca, Cartas a Lucilio, XVIII).

    Este imaginar das adversidades possiveis de acontecer fortalece o espirito, e permite enfrentar os acontecimentos com uma atitude “filosófica”, pois saberemos que o importante não são estes, mas sim a maneira como os encaramos.

    “Na praemeditatio futorum malorum a imaginação está ao serviço da razão, enquanto no estado de ansiedade é o oposto que sucede.”

    Mireille Armisen-Marchetti – Imagination and Meditation in Seneca: The example of Praemeditatio, Oxford Press.

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