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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Feliz por engano

Rita, participante aqui no DC:

"Será assim tão ilegítimo que o caminho se faça na busca do que não se teve? Não como uma forma de compensação mas de maneira a alcançar aquilo que se sabe que são os aspectos mais fundamentais para se viver (feliz)?".

Lucano explica : felices error suo, ou seja, és feliz por engano.  
A Rita  cuida ser possível buscar o que não se teve. Não creio. Tiveste, por exemplo, uma mãe descuidada, ausente, fria. Podes correr o mundo e o tempo: essa mãe que não tiveste, nunca a encontrarás. Se, de facto, encontrasses o que não tiveste,  serias feliz e de uma forma exuberante. Sendo impossível, regressamos a Lucano e à sua fórmula.
Acontece que Lucano tem razão ainda sob outro prisma. As coisas que nos fazem feliz ( um estado intermitente) são obra do acaso. Engano  é aqui sorte, desencontro. Ou seja, não será  através  da Razão que somos, a espaços,   felizes. O  amor de uma vida que começou porque alguém se atrasou, um bilhete de lotaria, um erro  de diagnóstico.
Se a dita felicidade pudesse ser alcançada pelo trabalho árduo, diz-me lá,  Rita, o que  a  distinguiria  da terra lavrada?

18 comentários:

  1. Rita vai calmamente sentar-se na terra lavrada e esperar que o acaso lhe despeje um engano... Se a razão tomar o lugar da ironia talvez consiga/queira/apeteça comentar o seu ponto de vista.

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    1. Ou fazer essas contas no final da vida ( já cá não estarei, mas envie-me um sms)

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    2. Não leia nas minhas palavras conformismo ou apatia. É mais perspicaz que isso.

      A nossa construção da memória não é apenas um registo de acontecimentos, tem igualmente uma função de filtro, de seriação e não (só de tentativa) de compensação. O que ficou perdido não será reencontrado, ok fica a falha, mas também nos garante alguma vantagem em não desperdiçar experiências. Para além de que as coisas que nos fazem felizes podem ser provocadas e alimentadas. Embora não feche a porta ao acaso, também não fico à espera dele.

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  2. Quando não há mais nada a terra lavrada tem que ser a epifania.

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  3. Comento erraticamente.
    Felicidade é sorte. Alguém dizia que ter-se sorte dá imenso trabalho, embora concorde consigo com aqueles acasos que mudam vidas. Precisamos ou não de ser príncipes de Serendip para vislumbrar o "milagre" por trás do fortuito?
    Não pertencendo a uma família muito gregária, passei a minha vida a procurar esta gregariedade ausente noutras famílias, às quais me entreguei como se fossem a minha mais próxima. Sou uma espécie de Rita que procura noutras mães a mãe que lhe esteve sempre ausente?
    Estes encontros substitutos são sempre um "ersatz"?

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  4. "alcançada pelo trabalho árduo". Ai não pode? Ups! Acho que, as vezes, penso que trabalho tanto, tanto, tanto, tanto que é de toda a justiça que seja feliz, como se devesse ter uma recompensa por isso. Tipo pensamento mágico, se me portar bem...naturalmente. O problema é que o portar-me bem é o portar-me pessimamente para quem me deseja abordar. Watever.

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    1. Sim, isso acontece, fazemos às vezes uma ligação estranha entre o destino e o passado.

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  5. Pus-lhe um elogio no post anterior. O Filipe não pôs online. Achou que era engano?

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  6. Foi engano feliz tirar um s a depressão no declínio e terra.
    O designer do blogue foi a sua filha?

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  7. declinio e queda (sei que Portugal é uma terra em queda - pagamos para viver em Portugal - mas este lapso é apenas burn-out).

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  8. São, verdadeiramente, sedutores os romanos estóicos da Bética, aqui sempre mui cultuados pelo caro FNV!! No caso prefiro aquela de Santo Agostinho que, pelo inverso, dizia que mesmo que consigas aquilo que desejas, se estiveres enganado, serás infeliz - Isto porque, me parece, é mais fácil ser infeliz por engano!! Nem Seneca nem Lucano foram infelizes por força do acaso, mas por erro!! Há, evidentemente, por momentos, felicidade por acaso mas, por outro lado, e excepcionando todas as que se adivinham, tragédias também! (Neste blog, as tragédias, regra geral, adivinham-se)

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    1. também é verdade, e Agostinho é um mestre da felicidade. Havemos de lá ir.

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  9. "O passado nunca está morto. Ele nem sequer é passado." William Faulkner

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  10. Seremos felizes e infelizes por acaso, porque não nascemos para ser felizes, nascemos para nos reproduzirmos.

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